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Por sobinfluencia

frantz fanon em saint-alban

Em comemoração ao aniversário de nascimento, nesse 20 de julho, do psiquiatra e filósofo Frantz Fanon, a sobinfluencia publica em seu site um capítulo do livro Uma política da loucura, de Françoise Tosquelles, em que o autor fala sobre sua amizade e trabalho junto ao revolucionário de Martinica.

Fanon era testemunha, principalmente por meio de suas ações. Sua vida não era uma narrativa, um recital, nem uma sequência de atos. Não quero idealizá-lo. Ele se enganava às vezes, como todo mundo, e talvez suas confusões fossem mais graves devido aos seus engajamentos no processo de cura. Contudo, mesmo nessas eventualidades, não vi pacientes que guardassem um rancor irreversível dele, ou que fossem aniquilados por isso. Sua mão e sua voz estavam sempre prontas e estendidas para o outro e seu sofrimento.

Uma política da loucura reúne textos e entrevistas inéditas de Françoise Tosquelles, organizados e publicados pela primeira vez em português.

A obra, além de ser um evento da memória, é também uma ferramenta que contribui para a construção coletiva de um outro mundo possível e por uma sociedade sem manicômios!

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Para todos aqueles que encontraram Frantz Fanon, nada é mais fácil do que se lembrar dele; seria sem dúvida mais difícil esquecê-lo. Sua presença ocupa para sempre os palcos da memória, assim como ocupava o espaço. Sua solidez e consistência, sua matéria corpórea nunca eram inúteis, como uma cama ou uma mesa colocada ali, no meio do cenário. Falava e o tema ganhava vida. Da opacidade à transparência, sua dança com ou sem véus tecia arabescos onde seus parceiros eram interpelados, em relação ao fundo e aos fundamentos de si mesmos. Uma mola com espirais infinitas. Polemizar, poderíamos dizer, era o seu forte. Alguns falariam assim, a esse respeito, de suas atitudes perversas para atrair vítimas consentidas. Fanon encarnava antes o respeito e a liberdade do outro. Sua fraternidade ativa trazia desde o início a apreensão lúcida da diferença. Sua presença exigia seu próprio envolvimento, suscitava seu próprio compromisso crítico. Isso é tudo!

Fazer-se amar? Fazer-se notar? Bem, por que não? Agora é a sua vez, tome suas marcas! Formule suas observações! Não há [lugar] deserto na vida, mas sim o espaço de um estádio. Certamente uma competição, mas a regra de ouro para ele era a lealdade dos parceiros.

Na minha vida, Fanon surge nesse espaço de fontes e confluência de águas, nas montanhas de Margeride. A propósito, que marginalidade estranha é essa do Maciço Central! Quem ousa falar de atrasados ou de refúgio de marginais? Ele veio para Saint-Alban precedido e seguido pelos caminhos pouco acessíveis que, partindo de Lyon, levaram tantos outros ao mesmo reduto lozéreano, onde eu mesmo fui acolhido alguns anos antes. Ele veio, atraído pelas possibilidades de uma certa prática psiquiátrica que estava sendo feita ou refeita. Quero dizer que, ao ir para Saint-Alban, Fanon estava indo a algum lugar. Ele pressupunha, e não estava totalmente errado, que Saint-Alban não era um campo de trincheiras. Ele presumia que Saint-Alban constituía um campo de ação que estava tentando oferecer oportunidades – controláveis – para que a loucura pudesse ter sua palavra e se reelaborar. Ele ia em direção a um lugar onde a preocupação ativa dos psiquiatras convergia na resolução irrevogável de organizar, por meio de um trabalho coletivo, seu próprio campo de trabalho. Não se pode compreender nada do projeto original de Fanon, nem das circunstâncias que o levaram a se tornar às vezes um herói, e até mesmo um herói trágico, se pensarmos em Saint-Alban como um espaço – um hospital psiquiátrico – um novo tipo de “reserva natural” onde se respira o ar puro da montanha; como sendo uma “zona rural” ou um “castelo” protegido dos supostos males da civilização industrial ou da sociedade de consumo. Não era isso. Não se tratava nem para Fanon, nem para tantos outros que trabalharam em Saint-Alban, de se trancar em caixas em oposição distintiva com as conhecidas concentrações carcerárias e sufocantes da psiquiatria “notacional” clássica. Nem mesmo se tratava de uma oposição “reativa” ou de uma reação de oposição aos hospitais psiquiátricos do grande fechamento. Foi no percurso a ser percorrido, no dinamismo, que ele pode encontrar as diferenças. Essas diferenças apareciam na teoria e na prática do envolvimento terapêutico.

Dois parênteses esclarecerão a questão. Fanon vinha, como tantos outros de Lyon, da faculdade de medicina da cidade. Uma caricatura do cartesianismo analítico, a joia de eficácia sobre o objeto anátomo-fisiopatológico que fundamenta a medicina em geral e se fragmenta em especializações intermináveis e desmedidas. Lyon havia produzido (veja só, até Paris, por favor, como convém) os “Resumos Médico-Cirúrgicos”, com dois volumes dedicados à psiquiatria e à formação profissional de psiquiatras. Um capítulo por doença. A sequência bem conhecida: diagnóstico, prognóstico, tratamento. Bom para o diagnóstico. Sem surpresa, diante das muitas formas clínicas descritas, dezenas, até centenas de páginas. Depois, o resultado e a justificativa pragmática de um trabalho tão louvável: o tratamento, é preciso, claro. E ele é resumido em uma única linha. O que eu digo? Não uma linha. Uma única palavra é suficiente. Sem erro possível na prescrição. Sem nuances, nem doses sempre geradoras de lamentáveis erros. Aqui está, em letras maiúsculas: tratamento: internação. Nem mais, nem menos.

Não gostaria de me limitar a anedotas sobre Fanon. Mas para ele, Lyon era isso, e dizemos que, também para ele, Saint-Alban era algo diferente. Aqui está uma anedota significativa – em relação a Saint-Alban e ao destino de Fanon. Estamos em uma noite na capital de Lozère, Mende, com pessoas envolvidas na cultura, portanto, de perto ou de longe, com a loucura. Falamos, discutimos sobre espaços, sobre diferentes tipos de espaços. Como é o espaço da loucura? E Fanon falou sobre isso e desenvolveu o assunto usando, por favor, textos culturais: o espaço da tragédia. Não era uma mera literatura comentada. Embora os textos e pretextos fossem fornecidos por “obras” clássicas, as do teatro. Quais eram os limites do campo de ação profissional dos psiquiatras? Onde estávamos com a chamada ação de higiene mental, ou até mesmo com a terapêutica? “Pacientes” participaram desses encontros fora do hospital. Famílias de pacientes também. Aí está o setor – como se diz? – da Psiquiatria de extensão? Os riscos estavam sendo medidos! Fanon queimou sua vida com isso. Ele morreu por conta disso. É preciso ler a tese de [Jacques] Azoulay se quisermos entender a jornada de Fanon em Blida e o que se seguiu: nada mais, nada menos do que seu envolvimento em uma psiquiatria de setor. Compreendemos as reticências – preventivas – de muitas pessoas. Pode-se dizer prudência. Fanon nem sempre tinha à disposição a suposta virtude da paciência. Ele assumiu seu destino trágico. Mas é ainda e acima de tudo sobre a psiquiatria.

Saint-Alban era o lugar de uma hipótese, não o lugar de uma aposta, nem o lugar de uma aventura. Os aventureiros podiam olhar para Saint-Alban, como alguns curiosos ávidos por novidades. Se eles provavam, às vezes, logo se desgostavam. A retirada estava garantida. Mas Fanon ficou mais dois anos. Eu não sei. Ele sempre permaneceu entre nós. Ele persiste, fala e age a partir do lugar onde se esconde em nossa memória. Não apenas na minha. Parece que a memória também é um fato coletivo, um fato social, como se diz. Olha! Ele está aqui novamente!

A hipótese de Saint-Alban não tinha nada de original ou absurdo. Isso dependia dos caminhos e das demandas de uns e outros. Um lugar “aberto” por dentro e por fora. Instituições, se quisermos, mas não uma instituição fragmentada ou negada. O plural e o diverso não são fragmentação. É mais sobre o que pode unir do que sobre o um. Para unir, é necessário o diverso, e o diverso não é entretenimento. As instituições se reúnem. Quando a reunião se torna fusão ou jogo infinito de espelhos, ela falha em seu próprio dinamismo e função. A hipótese colocada em Saint-Alban reuniu seres humanos, loucos ou não, para que pudessem explorar em si mesmos a matéria móvel articulável e rearticulável de que são constituídos, e infelizmente frequentemente moldados – como qualquer um – pela história. Se quisermos, era um dispositivo de truques, de “outras cenas” onde o verdadeiro em outro lugar presentificável, na verdade, se representa.

Alguns chamariam isso de processo de cura. Outros enfatizariam os “re-encontros outros” ou as respostas a chamadas discretas e às vezes não expressas: encontros outros onde, se quiser, se souber, e não sem paradoxo, se pode encontrar a identidade de cada um: sua singularidade, sua des-alienação, sua des-personalização. A hipótese não é devaneio. O trajeto da hipótese não é repetição dogmática. O compromisso não é cegueira. Tudo isso foi concebido a priori por Fanon antes de chegar em Saint-Alban. Entre a faculdade de medicina (especialmente em Lyon) e Saint-Alban (particularmente), Fanon, como tantos outros, percorreu o mesmo caminho, a mesma distância, fez os mesmos desvios e se instalou nos mesmos vales, nas mesmas florestas e na mesma lacuna que existe entre, por um lado, a clínica médica especialmente analítica, descritiva e cartesianamente médica, sua doutrina e sua implementação – para não dizer suas passagens ao ato – porque não quero que se pense que nego sua eficácia, nem mesmo em psiquiatria; e, por outro, a clínica psiquiátrica onde a divisão de seu objeto, no estilo anterior, se mostra inoperante simplesmente porque aqui está em questão; é o sujeito do sofrimento. A pane, se falarmos de mecânica, é o próprio processo de presentificação, até mesmo de “produção” do sujeito adoecido. Vale salientar que não se trata da “produção social e negociável” produzida por qualquer indivíduo social determinado, mas sim da produção do próprio sujeito. O sujeito é produzido. E é sua produção que se encontra em pane.

Não há nada no itinerário – que vai da faculdade de Lyon e sua doutrina médica até Saint-Alban com a hipótese que ali se desenvolvia – que represente algo relacionado ao retorno às fontes; nada que retome a antiga oposição entre natureza e cultura, entre civilização e estado selvagem; nada que responda a uma suposta nostalgia do paraíso perdido. Certamente, canções do pastor e suas ovelhas chegam aos nossos ouvidos – às vezes com uma maliciosa ironia ou disfarçadas sob a observação folclórica. Não ousaria dizer que pastores ingênuos de qualquer sexo e condição não possam ouvi-las com complacência ou, ao contrário, ficar ofendidos. Bobagem. A abordagem que levou Fanon de Lyon a Saint-Alban não era desse tipo. Ele era perspicaz e um bom ouvinte. Ele não se deixava enganar; alguns diriam que ele era até mesmo “patologicamente” desconfiado, talvez um pouco paranoico. Uma atitude assumida pela “paranoia-crítica”, da qual a operacionalidade do psiquiatra em formação (o verdadeiro psiquiatra está sempre em formação), sua “marginalidade” em relação à cultura cartesiana e racionalista, suas “distinções” e seu terceiro ouvido, eram os únicos meios que lhe permitiam tecer uma rede com os produtos que escorriam do sofrimento de “seus” pacientes. Fanon não estava afetado por essa terrível doença endêmica que, através da “voz de seu mestre”, congela o pensamento de muitos na “normopatia”. Felizmente para ele e para os pacientes que ele pôde tratar. Até onde eu sei, ele não tentou se curar de sua “normopatia” se engajando em uma “cura” didática, no sentido psicanalítico. Com ou sem razão, para se livrar dos efeitos da “normopatia”, ele investiu e assumiu sua própria palavra. Por quais caminhos? Quais reasseguramentos narcisistas eram seus? Eu não sei; não importa. Na verdade, ele trabalhava e era trabalhado por seu verbo. Ele brincava com seu ser, muito além e aquém da função auxiliar prescrita ao verbo ser em certos “tempos” do discurso.

Aliás, nem a dimensão poética nem a dimensão racional de suas produções discursivas escapavam a ele. Seu discurso era impulsionado por todo o seu corpo. Mas não acredite que isso o levaria à histeria. Ele vigilava as armadilhas e os perigos. Para ele, nunca se tratava de fazer semblante. Mesmo seu lirismo nunca foi uma fuga para o imaginário verbal. Se ele voasse, era para ver melhor, para se distanciar antes de aterrissar em busca de novas ações mais operatórias. Ele era testemunha, principalmente por meio de suas ações. Sua vida não era uma narrativa nem um recital, nem uma sequência de atos. Não quero idealizá-lo. Ele se enganava às vezes, como todo mundo, e talvez suas confusões fossem mais graves devido aos seus engajamentos no processo de cura. Contudo, mesmo nessas eventualidades, não vi pacientes que guardassem um rancor irreversível dele, ou que fossem aniquilados por isso. Sua mão e sua voz estavam sempre prontas e estendidas para o outro e seu sofrimento. Acredito que não era difícil para qualquer um, por mais mentalmente debilitado que possa parecer aos olhos de uma nosografia clássica, aproveitar a oferta e o chamado surgidos do rigor estrutural e estruturante de seu pensamento “poético”. Ele não escondia seu trabalho de polidor de conceitos – essas “armas-ferramentas” do artesão – onde seu papel de facilitador não era contestado por ninguém. O artesão, a propósito, não destrói a matéria em que trabalha. Na verdade, ele a respeita, agarra suas linhas de força e as revela com a ajuda de suas ferramentas. É por isso que às vezes – e isso é importante em relação ao artesão Fanon – pode dar a impressão de violência. É isso que às vezes pode gerar medos, aqui e ali. No entanto, notemos onde esses medos aparecem e até mesmo se propagam, através de rumores frequentemente maliciosos. Ouso dizer que esses medos se formulam facilmente onde alguns se subtraíram de si mesmos da obra. O medo e a violência vivenciados no outro justificam sua fuga, sua preguiça ou sua abstenção. Nenhum carpinteiro, marceneiro ou escultor poderia formular uma acusação de violência contra outro artesão sob o pretexto de que este trabalha, até mesmo bate com suas ferramentas, martelos, serras e assim por diante. É extremamente raro que um artesão utilize suas ferramentas de trabalho como arma para matar, ou que se suicide com elas. Entretanto, devemos admitir que a manipulação de ferramentas, vista de longe, pode ser assustadora. Dizem que um acidente pode ocorrer rapidamente. Portanto, o melhor, o mais sábio, o mais prudente é não fazer nada.

É verdade. “Acidentes” pontuam a vida – sempre social – quero dizer, a vida com os outros, aqueles que conhecemos e aqueles que não conhecemos, os próximos e os distantes, os outros e seus representantes. Sempre há o imprevisto, o enigmático, os mal-entendidos, os equívocos, as recuperações, os desvios, as capturas e os roubos no jogo entre uns e outros. Navegar com os outros não se reduz à realização de uma fantasia de desejo [rêverie désidérative]. A obstinação repetitiva de um projeto não parece ser um bom conselho para os navegadores. Fanon, ao contrário de alguns jovens aventureiros imprudentes, tinha diante de si, e ele não esquecia disso, a cartografia que outros navegadores haviam traçado antes. Isso não o impedia, pelo contrário, de estar atento e desperto para as variações incessantes do mar e os caprichos dos ventos. Isso não o impedia de buscar o desconhecido e ir um pouco mais longe, mas acima de tudo, isso não o impedia de se esquivar dos riscos calculados. Já dissemos antes, ele se enganava às vezes. No entanto, ele nunca buscava a tempestade para provar a si mesmo a medida, ou o excesso, de seu poder. Ele não temia a tempestade, se assim se apresentasse. Sua responsabilidade era enfrentá-la. Fanon certamente amava o barco, seu barco. Mas, não nos esqueçamos, ele sempre estava indo a algum lugar. Essas são as limitações e o lugar de seu narcisismo.

Tenho a certeza de que se ele me pudesse ler, iria rir das minhas metáforas de marinheiro e iria me chamar de idiota. Mais uma razão para continuar a insistir; já que gostaria de dizer que a sua navegação na psiquiatria pressupunha, como em cada um de nós, a preexistência de um campo de transição, o campo da ilusão – como Winnicott a chama e define o seu alcance funcional no processo de humanização de cada um. Essa ilusão não deve ser confundida com as exigências delirantes de um desejo todo-poderoso devido à onipotência do desejo. Fanon tinha sido alimentado de ilusões; isto é chamado na religião cristã a virtude da esperança. Não tinha nada a ver com os fatos dos manipuladores de ilusões, digamos de um certo clero ilusionista.

Então, para concluir, percebo que não disse muito, ou quase nada, sobre Fanon – nem mesmo sobre Fanon em Saint-Alban. Na verdade, estou satisfeito com isso. Não dizer nada aqui significa tudo o que a vida, a amizade e o trabalho compartilhados com Fanon despertaram em mim. E isso importa. Tenho esperança de que alguns jovens psiquiatras se identifiquem com isso. Além disso, tenho absoluta certeza de que a colheita irá surgir em algum lugar.