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Por sobinfluencia


Valar Morghulis ou o tempo da morte por uma política da memória

Valar Morghulis – “Todos os homens devem morrer” – e/ou “The time is out of joint” – “Nosso tempo está desnorteado” [1] são duas sentenças que ressoam um mesmo não-lugar: o tempo da morte. Ainda que haja, e decerto ainda há e haverá, toda uma distância literária – e não falo aqui da temporalidade histórica e, por isso, ficcionalmente linear, ainda chegarei nisso aqui – entre Shakespeare e George R. R. Martin, algumas frases se remetem, fazem semelhança, como ocorre entre toda a literatura. Hamlet espera a aparição de seu pai, o rei, que foi morto e que lhe incumbirá de retornar o tempo nos eixos; em A Song of Ice and Fire (1996) o tempo é deslocado para um fora do tempo para os Homens sem rosto de Braavos. Apesar de haver uma rejeição à identidade enquanto presença a si, é a partir da multifacetação de Jaqen H’ghar, que se refere a si na 3ª pessoa do singular, em que encontramos a fissuração entre mim e outro, entre eu e mim e o vazio como condição para essa alternância. O que quero dizer é que se com Valar Morghulis somos lembrados de nossa finitude como uma sentença, em Hamlet a morte é o que desanda o tempo da sentença.

– “Não um tempo com junções negadas, quebradas, maltratadas, disfuncionais, desajustadas, segundo uma disfunção de oposição negativa e disjunção dialética, mas um tempo sem junção assegurada ou conjunção determinável. O que aqui se diz do tempo também se aplica, consequentemente ou da mesma forma, à história, mesmo que esta última possa consistir em reparar, em efeitos de conjuntura, e este é o mundo, a disjunção temporal: “O tempo está disjunto”, o tempo está desarticulado, desalojado, deslocado, o tempo está desarranjado, perseguido e desarranjado, derrancado, simultaneamente desregulado e louco. O tempo está fora dos seus gonzos, o tempo está fora do lugar, fora de si, desajustado. É o que diz Hamlet”. [2]

Esse tempo desnorteado, que é o tempo da morte, é o tempo que é anunciado como fim. Entretanto, tanto o Rei, pai de Hamlet que volta sem retornar – o que é próprio do fantasma: aparição acontecimental – quanto os homens sem rosto são o eterno acontecimento singular que cinge e cinde a morte como eterno recomeço. É como se precisasse a morte desregular o tempo para que esse tempo outro, ordinal, pudesse existir. Não à toa, o vagar sempre é associado aos espíritos dos mortos e os homens sem rosto compõem uma ordem de assassinos que vagando pagam com vidas as suas dívidas
ao Deus vermelho. Ou seja, o tempo da morte é vivido pela vagância, sem se prender a um sentido fixo, a uma identidade fixa, a um corpo, existindo na inexistência, ressoando espectralmente a multiplicidade de sentidos, de rostos.

A finitude, nesse sentido, chega não como um encerramento, mas como um refazimento constante. O que aponta para a necessidade em pensar a vagabundagem do tempo ao se realizar em uma ruptura com a ficcionalidade da história e se abrir para o ressurgimento daquilo, no caso daqueles que não fazem mais sentido: o fantasma. Decerto, tratam-se de duas aparições diferentes o rei, figura que já é em si espectral – aquele que poucos veem e que nega a identidade de seu sujeito que a partir de então será sempre conhecido como o rei, assim como o seu antecessor – aparece (aparição) sem corpo carnal, dançando entre o visível e o invisível; já os homens sem rosto aparecem em simulacros/corpos não-fixos, mas múltiplos. Entretanto, em ambos os casos/aparições, aquilo que se viu não se sabe se viu mesmo, corretamente. Tudo passa por um engano, mas um engano dotado de sentido, não o vigente que nega essas aparições, mas um sentido outro, que vaga entre a certeza e a incerteza, o que é próprio à morte. Com isso quero dizer que é próprio à morte a errância do sentido. Não se há certeza sobre o que acontece nela, apesar dela, mas somente de suas aparições que fazem descaminhar o tempo. Então, o que significaria para Hamlet colocar o tempo nos eixos? Reorganizar o sentido? E nesse aspecto, não me refiro somente a encontrar e punir o assassino de seu pai. Mas também a reorganizar a lógica, o tempo na história, fazer sentido. Reorganizar o sentido, talvez fosse recolocar a Dinamarca nos eixos, no tempo correto, aquele da justiça que se inscreve, como sempre, em um porvir. Irredutível ao direito. E acontece que reorganizar o sentido depende de um tempo que não se realiza nesse mesmo
sentido. É um tempo de anunciação, anunciado por aqueles que falam exatamente o fim, a morte.

Perceber um fantasma, uma aparição, a morte dando as caras (infinitas e múltiplas), é perceber um futuro. Por isso o tempo da morte liga tanto o fim quanto o recomeço, que não cessa de começar. O tempo do acontecimento que irrompe as barreiras do sentido, da lei, da verdade, para anunciar uma possibilidade outra e assim causar a disjunção. Desandar o tempo, vagar um tempo outro, é o que possibilita qualquer possibilidade de produção de sentidos outros. É pesar o tempo da aparição e do sentido em detrimento do tempo da essência e da aparência.

– “ É preciso falar do fantasma, aliás ao fantasma e com ele, pois nenhuma ética, nenhuma política, revolucionária ou não, parece possível e pensável e justa, que não reconheça como princípio o respeito pelos outros que já não estão ou pelos outros que ainda não estão aqui, presentemente vivos, quer já estejam mortos ou ainda não tenham nascido. Nenhuma justiça – não digamos nenhum direito, e mais uma vez não estamos a falar de direito – parece possível ou pensável sem o princípio de uma certa responsabilidade, para além de qualquer presente vivo, no que disjunta o presente vivo, perante os fantasmas daqueles que ainda não nasceram ou que já morreram, vítimas ou não de guerras, de violências políticas ou outras, de extermínios nacionalistas, racistas, colonialistas, sexistas ou outros, de opressões do imperialismo capitalista ou de todas as formas de totalitarismo. Sem esta não-contemporaneidade a si do presente vivo, sem aquilo que secretamente o desajusta, sem esta responsabilidade e respeito pela justiça para com os que não estão lá, os que já não estão ou ainda não estão presentes e vivos, que sentido teria fazer a pergunta “onde”, “onde amanhã” (“whither?”) [3]


O tempo fora dos eixos é o tempo que convoca a uma política da memória – dos que foram e dos que virão – sem a qual nenhum futuro se erguerá. Futuro que permanecerá sempre futuro, assim como a justiça, e que por ser um tempo outro preenche o sentido do presente.

Uma vez que todos homens devem morrer, todos os humanos devem servir a esse tempo da morte que é o mesmo tempo de um futuro outro para os fantasmas que carregamos, para aqueles que seremos e para aqueles que serão.

Valar dohaeris – “todos os homens devem servir”.