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Por Mayara Dionizio

a abertura ao mito antropomórfico dos mundos possíveis

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Não lhes parece estranho – porque ineficaz, inatingível – que o modo pela qual tentamos estabelecer uma relação se dê, propriamente, em uma interrupção que é a fala? Que no anseio de falar, de escapar à nossa própria subjetividade, estejamos buscando alcançar outrem por essa diferença que impossibilita qualquer unidade e da qual a nossa fala mesma é testemunha? Que a palavra seja um apelo àquele que não sou eu, um apelo desejante de continuar face ao desejo, que por isso, ela é abertura e possibilidade de toda iterabilidade, pois assim mantém a fenda aberta de seu próprio acontecimento e permite que viajemos no tempo, já sabemos. Sim, temos vagado por entre seus caminhos abertos e diferenciáveis a cada semana. Também sabemos que há uma dimensão de alteridade que nos atravessa, e que lá, ainda que haja o silêncio da fala – uma vez que nessa irrupção da diferença entre mim e outrem, a fala, a palavra é o próprio silêncio, comunica somente a si, nos silencia em sua realização – existe um outrem. Este outrem, por vezes, resiste em nós como presença inalcançável, ou ainda como “o que Robert Antelme chama de o sentimento último de pertencer à humanidade[1].

O que ressoa outra afirmação de Antelme, aquela em que se diz que o humano é o indestrutível que pode ser destruído. Ou seja, quando outrem irrompe em nós, essa passagem da primeira à terceira pessoa, é para manter essa marca da necessidade radical, radicalizada pela necessidade impessoal e neutra sob a qual resta a marca de um futuro humano. Isto é, come-se não mais por um gozo, mas por uma necessidade que responde somente a si mesma, somente à existência desse indestrutível porque destruível humano. Existe aí um egoísmo do pior tipo: o egoísmo sem ego, que é aquele da sobrevivência — sobreviver, ainda que abjetamente, somente para viver. Alimenta-se outro sob essa necessidade, o hóspede de nós mesmos.

Me parece que esse Eu, que ainda não espia a existência de outrem, recusa o antropormofismo da natureza, dos animais, não somente como forma de se manter no horizonte humano. Digo isso, porque estou falando justamente de Antelme, dos judeus, dos marginalizados, dos sobreviventes na vagabondage, daqueles que são a firmação dessa diferença. Então, o que verdadeiramente me parece, que ressoa e ecoa como ruído silencioso, é que a recusa ao atropormofismo é uma recusa ao sistema de igualdade, sob a égide da igualdade enquanto domínio e subjugação da diferença e não como um modo de abertura ao divergente. Eis que então devemos sair do Éden hegeliano e partir, novamente, em direção à miragem do deserto. Se Adão, invejando o ato criador de Deus, se põe a criar e, em decorrência disso, assassina todos os seres e coisas criando a linguagem, a própria linguagem recria Adão, o paraíso e abre aos seres mundos possíveis em um espaço descentrado que chamamos de literatura. É que Adão quis resumir a existência do gato a uma palavra e determinar – porque assim domina – os modos de vida outros que o dele. Mas, se Adão, ao contrário de denominá-los, encerrá-los, vivesse essa diferença não buscando estabelecer uma igualdade, mas uma “intra-ação” [2]? É assim que devolvemos essa conexão ao lugar da vagabondage.

Mas, para isso, é necessário ainda, fazer um contorno. Emannuel Lévinas dirá que é a partir do momento em que olhamos o rosto de outro que nos abrimos à totalidade, mesmo porque é nessa relação que a alteridade se impõe, assim como toda violência e toda a responsabilidade. O problema, nesse sentido, é que o Outro de Levinas nunca é outrem não humano, pois a responsabilidade levinasiana, por mais que se abra à alteridade que é a pura diferença, ainda resta num estatuto de igualdade, aquele que lhe permite dizer que a sua filosofia é um humanismo do outro homem. Contudo, o espaço de abertura à diferença diz muito mais respeito à diferença mesma, enquanto abertura para a autoridade da experiência (que só a ela pertence), do que a uma ética que se fundamente em categorias espistemológicas e, portanto, excludentes.

Acontece que a porta da humanidade, categoria muito bem situada e demarcada, foi arrombada por uma leva de vagabundos e, agora, nós entramos. Por isso, agora, quero falar de três gatos e de uma humana que meteram dois pés e doze patas e ajudaram a descer abaixo a porta epistemológica que busca, nos termos bataillianos, fazer da experiência uma instituição. Falo de três os gatos, Batatinha, Nausicaa e Bruxo e uma humana, Juliana Fausto, assim como realiza-se em Cosmopolítica dos animais (2020). Segundo essa barreira epistemológica, obviamente, a conexão entre uma humana e três gatos não poderia ser considerada como uma relação. Acontece também que essa relação é marcada pela distância infinita e a sua diferenciação se dá na alteridade que marca a impossibilidade de apelo pela palavra – afinal, enquanto a humana fala em glossolalias aos ouvidos dos felinos os gatos miam glossolalias à humana, assim, realizam a incompreensão necessária e fundamental a toda comunicação. Isto é, se na comunicação entre humanos que compartilham uma mesma linguagem, ou melhor, que vivem uma vida possível dentro dos limites determinados pela linguagem, vozes são abafadas, caladas, extirpadas do jogo da existência política; a voz desses extra-humanos vive uma outra forma de silêncio. É que o silêncio da fala se impõe de modos diferentes: há quem fala, quem não pode falar e quem não quer falar. Na linguagem de cada ser e de cada ente que ultrapassa e alarga a porta da humanidade há o silêncio, mas de qual silêncio estamos falando quando falamos dos animais?

Quando me refiro ao silêncio, me refiro à incomunicabilidade presente em todo discurso. Nesse sentido, a voz dos animais, sabendo desse silêncio incontornável e que grita em cada tentativa de comunicação, fala mais que a Voz humana, pois fala a própria diferença. Esse grito incontornável da ruptura, ao qual Fausto pode escutar, pois ela, assim como qualquer vagabundo, porque marginalizada, e até mesmo por esta condição de Voz abafada, prefigura o contrário a Adão. Não, em vez de nomear gato, e com isso reduzir Nausicaa, Batatinha, e Bruxo ao seu ato humano-quase-divino de criadora, a humana e os três gatos se abriram ao fora da intra-relação.

nem eu nem Bruxo ou Nausicaa existimos como humana e gatos previamente, com tudo o que tais categorias trazem consigo; mas é no fenômeno, ou melhor, em todos os fenômenos nos quais tomamos parte que passamos a existir como entidades separadas com competências e responsabilidades distintas e não simétricas. Não há de antemão nem um “eu” nem um “eles”, mas emaranhamentos dos quais podemos emergir eu, Bruxo e Nausicaa em situações particulares segundo “relações materiais-semióticas”. Somos ambos “sujeitos e objetos uns para os outros em intra-ação fluente” […] Isso vai de encontro à infantilização dos animais e ao vocabulário da adoção. Em meu caso, respondi aos gatos quando nos vimos pela primeira vez; mas, não menos importante, eles também responderam a mim. Parafraseando as filósofas citadas [Donna Haraway e Karen Barad], somos responsáveis uns diante dos outros, outros uns para os outros, surgidos de emaranhamentos nos quais cortes são reiteradamente implementados

FAUSTO, 2020, p. 32, grifo meu

Mas, como se daria a responsabilidade frente a uma diferença irruptiva que é aquela que exclui todo o humanismo como categoria de inclusão? Sim, mesmo porque a responsabilidade, aquela que se abre frente à violência e como um chamado do rosto, obedece às categorias “humanas”. Ou seja, o máximo que a extensão de responsabilidade humana pode ter, nesse contexto levinasiano, seria aquela que existe sob esse desgastado chão da filosofia da alteridade. Contudo, essa alteridade, e é isso que grita em relação à comunidade terrestre, diz sempre respeito a essa igualdade humana. Então, como retoma Juliana Fausto, a partir de Haraway, uma alteridade outra seria aquela capaz de se abrir ao acontecimento no fenômeno, se abrir à responsabilidade como resposta, como capacidade de se lançar no emaranhando que atravessa e dispõe tudo ao vir-a-ser.

É por essa rota que gostaria, mais uma vez, de retomar o apelo ao sonho. Parece-me que a abertura da humana Juliana ao abandono de sua configuração para sua reconfiguração, refaz – eternamente como todos os passos e pegadas do mundo – o caminho outro que os gatos também fizeram ao encontro. Nesse contexto, o apelo desejante pelo encontro que permanece como desejo de abertura conduz a humana às reiterações, iterabilidades, e escuta de vozes outras que, por vezes, lhe falaram em sonho. Nesse contexto, só que em outro, outra fenda, vagabundeando, errando pelas ruas, sempre já subtraídos do estatuto de sujeito e existente político, Batatinha, Nausicaa e Bruxo, sempre já mais abertos ao vir a ser do que qualquer humano, se comunicando com o fora, foram de encontro à essa resposta outra. Aquela em que os modos de habitar o mesmo cosmos existe em uma possibilidade outra de mundo.

Um dia, Juliana me contou que sonhou com o Batatinha antes de sua chegada que, por sinal, a arrancou de toda ficção séria que a cidade de Curitiba insistia em lhe impor. Nossa relação, nossa distância infinita, também envolveu a confissão de um sonho meu. Sonhei que Lázaro, – a outra versão do Lázaro bíblico, aquele retirado à vida e à morte, condenado à errância, à vagabundagem dos migrantes e imigrantes – de repente me falava toda a diferença, toda a ausência de sentido. A partir de então, nos unimos nessa distância, nesses sonhos que não são confidências, mas na imposição de uma linguagem outra, aberta, incomunicável, porque nos unia no intervalo. Éramos duas, juntas por uma linguagem impronunciável. Dias atrás, após ler A Cosmopolítica dos animais, ela estava lá, no fora do deserto e dançava com Batatinha, Nausicaa e Bruxo, de modo que no instante imediato não pude distinguir quem era a humana e quem era extra-humano. Nesse dia, nesse mundo outro, a celebração unia gatos, cachorros, insetos, pássaros, cobras, humanos, etc. sob o mesmo estatuto de seres viventes, de sujeitos políticos.

Por fim, sobre a nossa amizade, sobre a amizade com outras espécies companheiras, sobre mundos possíveis para essas relações:

Aqui, a discrição não está na simples recusa de mencionar as confidências (como seria rude até pensar nisso), mas é o intervalo, o puro intervalo que, de mim para essa outra pessoa que é amiga, mede tudo o que existe entre nós, a interrupção do ser que nunca me autoriza a dispor dele, nem do meu conhecimento dele (até mesmo para louvá-lo) e que, longe de impedir toda comunicação, nos traz de volta uns aos outros na diferença e às vezes no silêncio da palavra [3].

Continua…

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.