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Por Mayara Dionizio

a anarquia da literatura: esse desengajamento já engajado no mundo

Quando a literatura existe? A sua autonomia pode ser dispensada, sublocada, colocada somente enquanto realização de algo? 

Ressurge, agora, a partir de um novo círculo literário-filosófico francês, toda uma discussão em torno do engajamento do escritor como modo de se fazer literatura enquanto testemunho e crítica social. Essa discussão já tão batida nos anos 60 em torno da concepção sartreana de literatura:

O papel do escritor está definido: enquanto negatividade, a literatura contestará a alienação do trabalho (marxismo); enquanto criação e superação apresentará o homem como ação criadora e o acompanhará em seus esforços para superar a alienação presente, rumo a uma situação melhor [1].

Gostaria de começar dizendo que neste embate Jean-Paul Sartre perdeu. Mas é necessário explanar todo um contexto, no qual a literatura não só se deixa passar por superficial – desde que dissociada do único papel legitimador que lhe foi atribuído: desalienar – quanto aproveita dessa ingenuidade para se dissimular em seu poder subversivo. Agora, retomando a “função” que lhe é atribuída – como se antes de lhe ser atribuída, o aberto que a literatura realiza não realizasse concomitantemente uma imaginação política radical de outros mundos possíveis – Sartre, ao escrever O que é literatura? (1947), coloca um questionamento a fim de conferir legitimidade a literatura. Ou seja, o que é? Como se dá? Para que serve? Esquecendo-se, ou desviando-se daquilo de mais importante: toda literatura começa por uma questão, toda escrita, toda obra começa como questionamento de si mesma. Uma obra que não tenha como questão a realização de si mesma é  uma obra que obedece à ordem do dia, ao pensamento sistêmico. Nesse sentido, nota-se um passo a frente do Sartre filósofo em relação ao Sartre escritor, pois a realização da literatura passa a estar condicionada a uma certa condição de verdade filosófica, conceitual, excluindo dela a ficção que constitui toda obra.

Realmente, trata-se de um grande esforço novamente empreendido para tornar a palavra literária uma palavra engajada com um ideal de verdade – repito, ela nunca deixou de ser também política e nunca precisou de uma atribuição de função por parte de movimentos literários ou de escritores engajados. Não bastasse lembrar o declínio do projeto de esclarecimento moderno inaugurado por Kant, segundo o qual o indivíduo que alcançasse a maioridade racional necessariamente alcançaria o dever moral. Não bastasse desde o século XX esse projeto ter caído por terra frente a projetos totalitários e genocidários que foram orquestrados sob a plena instrumentalização da razão e da elevada cultura artística e filosófica. Se trata simplesmente de dizer: o projeto que se empreende na literatura já está nela e buscar legitimá-la dando-lhe uma função exclusiva, retira-lhe o seu próprio engajamento em relação a si. Essa é a dimensão anárquica da literatura. 

Então, encontramos o engajamento contemporâneo ligado a uma ideia de testemunho. Nisso, também há que ser feita uma distinção. A literatura engajada defendida por Sartre não implicava em uma escrita confessionária, de testemunho, como se empreende hoje em dia. Trata-se de uma escrita intencional, dentro de uma concepção de que o escritor conceba e tenha total controle sobre a obra, sobre o seu porvir, e sobre a sua finalidade – processo de criação literária que encontrou forte oposição a partir da escrita neutra de autores como Roland Barthes e Maurice Blanchot, por exemplo. Até parece sugestivo, do ponto de vista militante, a necessária inclinação que se teria apenas ao comparar os termos de eleição literária: literatura de engajamento versus literatura neutra. Entretanto, a primeira diz respeito ao engajar-se a literatura em algo, o segundo diz respeito à autonomia que a literatura tem sobre si, sobre a sua realização, e que nela já está compreendida a estadia de um tempo histórico e as suas questões, bem como a abertura a intemporalidade. Algo que, por exemplo, é chamado por Jacques Derrida de anacronismo da literatura. Isto é, lemos Romeu e Julieta e tanto lemos a sua marcação histórica política, social, cultural, quanto lemos uma narrativa que nos realizamos também nela. Romeu e Julieta se realiza tanto em seu tempo, em suas questões, como se mantém aberto às temporalidades outras, o que possibilita que a sua leitura seja realizada sempre. A literatura engajada que se empreende agora busca dar exclusividade a sua realização. Sob a aba do gênero autoficção, busca-se trazer o testemunho de modo cada vez mais a excluir e ficcionalização, para assim, se excluir a dimensão e relativização dos fatos. Tarefa impossível, os escritores sabem.


Talvez seja, afinal de contas, aconselhável compreender que o escritor que assina textos ficcionais vende a alma ao diabo, e para a subversão não há limites. Querer saber se um texto de autoficção é real é o mesmo que pedir nas provas que o aluno discorra sobre o que o escritor quis dizer com determinada passagem. O autor, de todos os leitores, é o que provavelmente menos sabe, já que o que quis dizer ele não disse, escreveu. Tudo tem autoria e tudo tem nisso uma subversão. [2]

O problema é a tentativa de equivalência da literatura autoficcional, ao testemunho, à crítica social como função literária e não como algo que também acontece dentro da realização literária. Quando surge uma crítica literária dizendo: “quando leio esse livro, vejo que não há diferença entre literatura e testemunho”, vê-se que o problema sopesa não no que há de ficcionalização do testemunho, mas em tentar fazer da ficcionalização uma verdade inconteste – pois como escreve Nara vidal: “A narrativa ficcional, seja a de si, seja a do outro, nunca irá nos proporcionar o que a arte rejeita: certeza”. Isso se torna mais problemático quando se torna uma legitimação do fazer literário.  

A tentativa em fazer dar uma função a escrita de autoficcção, ou ainda, tranformá-la em engajamento, implica também em outro ponto: o escritor depende da obra para ser escritor; a obra, por outro lado, se dá por meio desse escritor até ter a sua autonomia em relação ao mundo, quando deixa de ser obra de alguém para ser obra para alguém. É esse o cuidado que a literatura tem consigo: a questão que pesa sobre a literatura a faz se realizar na realização da linguagem, na realização da página escrita. Antes, não há escritor, nem leitor, nem obra: há apenas o fundo originário do qual a palavra advém. O eu (moi sujet) e nós, leitores, podemos até julgar negativamente (palavra acessória) o cuidado da literatura em se realizar, pois esse cuidado demonstra quão essencial a literatura se entende. Ou seja, só devo cuidar daquilo que é precioso, devo cuidar até da minha realização para que a dúvida sobre a minha inconsistência, frente ao mundo do conceito, não venha à luz do dia e atrapalhe o meu surgimento.

Novamente, em que pese a questão da irrealidade, do vazio, do surgimento fútil, de sua brincadeira, esse é o jogo da própria literatura consigo mesma: ao depreciar-se, confirma-se. No mundo ordinário, como falar de coisas inexistentes? Ao se permitir ser depreciada como inessencial, a literatura faz com que reconheçam a sua essencialidade, a sua existência. Por outro lado, de tão astuta, a literatura, ao aparentar estar preocupada com a sua legitimação como coisa existente, vela exatamente a sua força deslocada para trabalhar no enigma da realização de si mesma. Há na literatura um fundo de impostura! Sem a impostura, a literatura pertenceria ao dia, à filosofia e, convenhamos, ao que retiraria toda a sua força em estado puro. É por ser ilegítima, por ser nula, que ela se vê isolada em sua força abstrata. Os questionamentos como os de Sartre confirmam que para alguns só é possível compreender a literatura a partir de sua depreciação que é lhe dar uma finalidade. É necessário pensá-la levando-a ao limite do pensamento sistêmico. Por isso, quando se questiona o que é a literatura, demonstra-se também a má-fé de tal pergunta.

Mas a literatura que é o poema e romance, parece ser elemento do vazio, presente em todas essas coisas graves, e sobre que a reflexão, com sua própria gravidade, não se pode voltar sem perder sua seriedade. [3]

Esse lugar que é atribuído ao escritor como impostor é essencial à literatura, é ela que lhe dá uma função ao torná-lo escritor e não o contrário.  Essa impostura que lhe são atribuídas vem do vazio que penetra as verdades humanas que todos insistem em ignorar devido  ao medo de perder a sua segurança material, a sua comodidade na matéria das coisas, na confiança do conceito. Falta-lhes compreender o jogo da linguagem mesma, em que a negação é a face de toda afirmação. A literatura se ergue frente a essa hipocrisia colocando-se como  impostora porque assume a sua contradição como condição de existência e realização de si; do mesmo modo, desde o momento em que se volta à parede até ser deixado pela obra, o escritor aceita o movimento do jogo literário como única forma de continuar a escrever, a viver.

Por fim, se o escritor é aquele que deve seguir todas as leis, pois as seguindo abre espaço para o jogo, para o movimento da literatura — isto é, para o seu porvir, que pode ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar —, cabe a ele justificar a existência das coisas que não existem dando nome a elas. Dito de outro modo: o escritor dá a palavra às coisas que não existem ainda. Entretanto, se considerarmos que a literatura se realiza na obra — que, por sua vez, realiza a si mesma em sua realização, em sua produção —, então é a literatura que é, no escritor, essa capacidade e possibilidade de realização. 

Para literatura engajada, herdeira sartreana, a concepção de trabalho, de ação e de negação está ligada a essa concretude, dentro da qual é trabalho aquilo que produz materialidade no mundo. Nisso, o pensamento de Sartre é o que mais escandaliza, pois, ao afirmar que o escritor deve ser o intelectual engajado que produz obras com função social e que deve superar a antinomia entre palavra e ação, o filósofo está afirmando que há um distanciamento entre palavra e ação. A afirmação sartreana implica também reconhecer a literatura como um nada que passa a existir somente se ligada ao engajamento. Que valha a relação intrínseca entre a palavra e revolução, isso nunca foi negado, que valha a transformação que a palavra opera na humanidade e na modificação material do mundo, mas associar a existência da literatura à sua utilidade material é equivocar-se não só sobre o que é a ação em si, mas também sobre o que é a literatura.

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.