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Por Mayara Dionizio

A errância do escritor

O que é um comentário? Esta pergunta tão voluntária guarda em si toda a potência e despontencialização da crítica. Em um só tempo, comentar subtrai algo daquilo que é objeto do comentário e o substitui com a crítica, mesmo que esse objeto permaneça lá, intacto. Mesmo que esse furto não ultrapasse os limites metafísicos. Talvez por isso o ato cometido em palavras, em duplicação do objeto, da realidade, seja a sua realização em um plano mais profundo. Artaud diz que um ato cometido em cena é muito mais real do que um ato cometido na realidade porque, em cena, o ator tem de concentrar em si toda a energia para cometer um assassinato sem cometê-lo; por outro lado, o assassino dá vazão a essa energia assassinando. Depois, enquanto o assassino realizou o seu desejo e liberou a sua energia, o ator permanece em contato com essa força e cria formas de acessá-la. Talvez seja assim com a escrita. Uma forma de permanecer em contato com o enigma, com essa força. Uma crítica seria, portanto, um furto em uma outra dimensão. Um furto que não pretende roubo, pois subtraímos algo do que criticamos e colocamos no lugar um suplemento, uma fala outra. Assim, a obra se realiza infinitamente sob cada olhar, sob cada leitura, sob cada abertura que se ilumina sobre ela, ainda que seja para adentrar em seu ponto mais obscuro e lá se perder. Como vagalumes vagando em meio ao breu do desconhecido. 

“Entre o pestífero que corre gritando em busca de suas imagens e o ator que persegue sua sensibilidade; entre o vivo que se compõe das personagens que em outras circunstâncias nunca teria pensado em imaginar, e que as realiza no meio de um público de cadáveres e de alienados delirantes, e o poeta que inventa personagens intempestivamente e as entrega a um público igualmente inerte ou delirante, há outras analogias que explicam as únicas verdades que importam e que põem a ação do teatro e a da peste no plano de uma verdadeira epidemia”

É assim, por meio dessa realidade que se realiza também na escrita de uma crítica literária, em que ao se falar “sobre” se realiza outra realidade daquilo que se comenta, que escrevo sobre uma obra que tem a si como questão: La Plus Secrète Mémoire des hommes (2021), de Mohamed Mbougar Sarr. O enigma da origem, essa força que espanca e explode em rastros dos quais colhemos cacos, lascas deixadas no mundo se faz portal no livro que é perseguido neste livro. Se digo que é um outro livro a ser perseguido nesse livro, é porque o que propriamente se persegue é essa força que move a literatura. O Labirinto inumano – o livro em questão –, na narrativa, é escrito por Elimane; um escritor senegalês que, após ganhar um importante prêmio na França dos anos 40, é acusado de plágio e desaparece. Acontece que a sua obra provoca em quem a lê fascínio, espanto e obsessão. Diégane Faye, também escritor, senegalês e imigrante na França, depois de ler o livro de Elimane – que lhe chega já em uma atmosfera sibilina em um café – passa buscar o seu autor a fim de encontrar também a própria obra. A literatura se realiza no livro exercendo uma força sobre quem a lê, assim como o livro de Sarr. A literatura se realiza deixando rastros – que seriam a própria obra? – dessa força que é personificada por Elimane. Em contato com o além-do-sentido, o escritor se torna vidente, se comunica com o além e isso aparece em sua decifração de vidente.

Afinal, um escritor não é senão alguém que abandona o “eu” em razão de um “ele” que é a obra? Sujeito que se desatende e se torna receptáculo de uma experiência na qual ele e a obra se realizam mutuamente. Por esse motivo, escrever é romper o elo entre a palavra e o eu, uma vez que esse elo inexistente, mas mentiroso, finge existir em relação às palavras do dia, à certeza, à verdade. Escrever é quando se cessa de dizer “eu” para dizer “ele”. Afinal, ele é o Outro que fala em meu lugar, é a obra que comanda a minha mão que escreve, é puro ato de alteridade. Entretanto, essa relação é mais profunda, porque o escritor não fala mais a linguagem  de ninguém; a sua linguagem não tem mais interlocutor, ela é desprovida de centro, e as afirmações que o escritor afirma são privadas dele mesmo — alteridade absoluta entre o eu e o  outro, entre o eu e a obra, entre o eu e a palavra. Solidão essencial que impede o escritor de dar a palavra a Outrem. Quem fala em seu lugar é a obra, e por uma linguagem que ninguém utiliza. Isolado e incomunicável. 

 Elimane: 

 “Durante anos, em minhas visões, eu me via exatamente como neste momento, neste quarto, velho, mas escrevendo nesta mesa, com um sentimento de leve tristeza. Eu interpretava essa visão como um sinal de que algum dia seria capaz de terminar o livro de minha vida após O labirinto do inumano. Eu via em minha tristeza a tristeza que toma certos criadores no momento em que terminam uma obra que lhes exigiu ir ao limite de suas forças. Estava enganado. Na verdade, e estou ciente disso neste exato momento, essa visão não mostrava a minha pessoa acabando meu romance, mas sim terminando esta carta. A tristeza que me invade agora não traduz meu sentimento diante da finalização de meu livro, mas diante do seu inacabamento. Não vou acabar. Tenho cento e dois anos e teria me faltado tempo. Sinto falta do futuro. Assim acaba todo adivinho:na nostalgia do futuro. Assim acaba todo vidente: na melancolia do porvir.”  

Logo, quando se dá conta de sua condição, de sua ausência de si, o escritor tenta desesperadamente tecer alguma relação, conseguir alguma companhia, e é nesse contexto que ele cria o personagem, mesmo sabendo que o personagem não estará jamais em sua companhia. O escritor                   emudece, agora lhe resta o silêncio, e em seu lugar quem fala é o murmúrio estridente da linguagem literária; seu silêncio repousa em seu apagamento. Nesse silêncio reside o único poder do escritor: o de calar-se. 

Tal intimidade com esse não-lugar, com esse fora que não permite permanência, é a experiência que produz a solidão. O escritor, quando acessa essa exterioridade, se deixando ser simulacro para a obra, está só e passa a pertencer a esse fora que se torna a sua fissura, o seu fascínio. O escritor se apaixona pela errância…

Uma vez que lá não há começo nem fim, tudo passa como um déjà vu. Esse inapreensível se torna irrenunciável ao escritor, ao obcecado escritor que sabe não poder apreender, não poder alcançar, somente retomar. Ele, o escritor, retoma, pois essa é a única forma de estar em contato com esse não-tempo, com essa ausência que é onde o ser está: 

 “parte nenhuma é aqui, e o tempo morto é um tempo real em que a morte está presente, chega, mas não cessa de chegar, como se, ao chegar, tornasse estéril o tempo pelo qual pode chegar”

É nesse tempo que a obra vive, é o seu porvir que chega e não cessa de chegar — tempo morto que se faz presente na ausência de presença, que dissimula toda presença. Esse tempo é o tempo da solidão como experiência da obra, experiência da escrita. O  escritor que está só, está nesse tempo morto quando escreve. Então seria possível fazer esta pergunta: se ele está nesse tempo, há alguém lá que ocupa o lugar do ser; logo, há presença, e não ausência? Não. Lembro que o escritor é aquele que se desvincula de si nesse tempo; ele não tem mais um “eu”, tem um “ele”, por isso é alguém. Mas essa pergunta esquece que alguém é impessoal, alguém é o desconhecido: alguém só pode existir lá no lado de fora, porque antecipa e precede, por isso é inacessível. Sim, antecipa e precede, pois alguém sempre existiu antes de mim, antes dele, do escritor. Alguém, nesse sentido, é aquele que não se conhece, que não tem fisionomia, que caminha sem chegar, que é a morte caminhante. Alguém, nesse sentido, é nós, e nós somos alguém porque nos diluímos no coletivo. Afinal, quem é o povo? Quem são todos?

“Nenhuma pessoa participa do coletivo impessoal, que é uma região impossível de trazer para a luz, não porque oculte um segredo estranho a toda revelação, nem mesmo porque seja radicalmente obscura, mas porque transforma tudo o que lhe tem acesso, inclusive a luz, no ser anônimo, impessoal, o Não-verdadeiro, o Não-real, entretanto sempre presente”  

Tal intimidade com esse não-lugar, com esse fora que não permite permanência, é a experiência que produz a solidão. O escritor, quando acessa essa exterioridade, se deixando ser simulacro para a obra, está só e passa a pertencer a esse fora que se torna a sua fissura, o seu fascínio. O escritor se apaixona pela errância…

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.