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Por Mayara Dionizio

a inimaginável e o imaginário

como as Pirâmides ou a Acrópole, Auschwitz, [e Gaza] é o feito, é o signo do homem. A imagem do homem é doravante inseparável de uma câmara de gás…

GEORGE BATAILLE

A obscenidade escandalosa do inimaginável nos visita mais uma vez. Se de um lado recusamos olhá-la, por outro ela nos consome, espero que seja pela exaustão. Olhar para a imagem do inimaginável é justamente refutá-lo, nos restando admiti-lo, inclusive como construção humana. Não quero ressuscitar o defunto já velado do humanismo. Sabemos que humano é aquele que escapa ao humanismo, não por qualquer coisa positiva ou negativa, mas precisamente por se pensar somente este ser dentro de ideais “alcançáveis” de razão, ética, compaixão. Mesmo porque tais ideais foram levantados sobre discursos que excluem essa invenção que é o humano moderno, que instituem uma epistemologia ética que direciona para com “quem” devemos sê-lo. Não se trata disso.

[…] onde está o homem, quando se encontra um homem? [1]

O humano, então, seria aquele que grita porque é ruptura com o horizonte do que se anuncia humano. Isso se mostra um começo sem começo para o humano. Se o grito é puro instante disruptivo, se o humano é aquele sempre destinado a desaparecer – seja pela morte dada como fim, seja como ideal, etc. – é nele que o humano está: animal de passagem, de pura ruptura. Se falo desse grito é porque a escrita é aqui o grito: como puro fragmento, ruptura com a linguagem ao refazê-la em seu sentido a todo instante. Afinal, esta é a escrita possível após tombada toda essa idealização em torno do humano. Apesar de que toda essa idealização nunca convenceu a literatura que sempre fez só se realizar e, se realizando, mostrava que tudo é ruptura e ficcão. Há, portanto, uma estranha conjugação entre o inimaginável e o imaginável. Como imaginar Auschwitz? Como inimaginar Gaza?

Didi-Huberman, em Images malgré tout (2004), discorre sobre a relação entre o silêncio e o inimaginável. Essa relação que se dá partir de quatro fotografias capturadas clandestinamente em Auschwitz em agosto de 1944. 1. câmara de gás do crematório. 2. fossas de incineração. 3. mulheres nuas no bosque de Bikernau. O horror distribuído em quatro pedaços de película arrancados do inferno, assim como escreve Huberman. O rolo de filme fotográfico foi escondido em um tubo de pasta dental e enviado à Resistência. A politica protocolar da máquina nazista adota uma regra: não se falar, não produzir imagens do que acontece nos campos de concentração. Aqui, temos duas estratégias que se ligam ao inimaginável: fazer desaparecer as vítimas em sua língua, cultura, ego, seus corpos; fazer desaparecer os instrumentos utilizados para esse desaparecimento e a memória que dele poderia restar. E então tinha-se quatro fotografias deste desaparecimento e o seu horror. Essas imagens refutam toda essa idealização humana moderna, essas imagens fazer ver aquilo que todos os que estão fora do inferno não querem ver. Quanta dor o nosso olhar pode suportar? Auschwitz é irrepresentável pelas imagens. Não podemos imaginar o frio, a dor, a fome, o medo, o horror brutal e absoluto. Huberman sabe disso e dirá que essas imagens, apesar de tudo – e esse tudo diz respeito à toda irrepresentatividade da Shoah – refutam o inimaginável, pois nos fazem ver, olhar e suportar o mínimo de horror que elas nos trazem. O mínimo justamente porque o todo é esse irrepresentável.

A imagem fotográfica surge na dobra do desaparecimento próximo da testemunha e da irrepresentabilidade do testemunho: arrancar uma imagem a esse real [2]

Mas se saímos dessa dialética entre inimaginável e representável, vemos que, apesar do irrepresentável, o horror tem seus efeitos no que é imaginável. O imaginável não é vivido, por isso, não é comparável ao que as vitimas do massacre nazista estavam submetidas. O problema, então, das imagens saídas do inferno não é a sua refutação do inimaginável, mas justamente tornar possível imaginar o inferno. E, imaginando, a adesão ao horror em muitos casos não pode ser sustentada porque não pode ser suportada.

Assim, um dos efeitos da máquina de desimaginação nazista consistia exatamente em fazer desaparecer não somente aos judeus, mas também o seu próprio desaparecimento.

Como um soldado da SS disse:

Talvez venham a existir suspeitas, discussões, pesquisas conduzidas por historiadores, mas não existirão certezas, pois destruiremos as provas ao destruir-vos. E mesmo que subsistam algumas provas, e que alguns entre vós sobrevivam, as pessoas dirão que os factos relatados são demasiado monstruosos para ser possível acreditar neles

A questão, aqui, é que pela imagem do horror podemos imaginar o horror, por mais que o horror seja inimaginável e indizível. Agora, como olhamos para Gaza? Como sustentar o olhar para Gaza e imaginá-la a partir do que nos chega? Ou ainda, como olhar para o desparecimento dos palestinos visto com toda a imaginação e sustentarmos que imaginar não basta, não constrange o Estado de Israel e o terror sionista? Poderíamos atribuir isso à falência do humanismo que, uma vez enterrado, não exige mais um velamento do horror humano? Poderíamos pensar que a nossa imaginação do inimaginável não é mais um fardo insuportável?

Não se trata de velar, de esconder. Se trata de ver o invisível presente no além-visível. Os nazis não foram menos piores por quererem fazer desaparecer o desaparecimento que promoveram. O terror sionista não é menos pior em não conseguir, apesar de tentativas frustradas, que diminuíssem o número de imagens e vídeos vazados de Gaza. A questão é única e central: como nós suportamos, mais uma vez, imaginar o que acontece em Gaza?

Precisamos imaginar Gaza, apesar de tudo, apesar de ser indizível e irrepresentável. Precisamos imaginar Gaza a partir do invisível que nos foi tornado visível. Precisamos imaginar que é insuportável imaginar o horror. Somente imaginando mundos outros possíveis, contra todo o horror em Gaza, que podemos suplementar este sentido dado pelo qual aceita-se suportar o inimaginável. Somente imaginando que se resistiu ao nazismo, somente imaginando se resiste ao massacre sionista em Gaza.

Blanchot, em uma carta enviada a Nelson Mandela, escreve:

A inércia da Comunidade Europeia desqualifica a parte do ideal e da civilização que afirma representar. Saibamos, portanto, que também nós somos responsáveis ​​e culpados, se não fizermos ouvir um apelo, uma denúncia, um grito e mais um grito [3]

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.