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Por Micael Zaramella

caracóis e futebóis: zapatistas que jogam bola e outros mundos possíveis

Jogadoras das equipes zapatistas Arcoiris Rebelde e Jóvenas Rebeldes disputam a bola, na partida de abertura do “Encontro internacional, político, artístico, esportivo e cultural de mulheres que lutam”, em 2018 [31].

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Em novembro deste ano completam-se 40 anos da fundação do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Conhecido mundialmente após o levante de 1º de janeiro de 1994 – a partir do qual se produziu o processo de conformação e consolidação dos territórios autônomos localizados no estado de Chiapas, no México –, o EZLN rapidamente se tornou referência de destaque para distintas organizações e lutas, articuladas às mais distintas tradições políticas de esquerda. Tal interesse pela experiência zapatista se deve, em parte, às singularidades do mosaico de perspectivas políticas e matizes ideológicos do movimento, combinadas às realizações materiais levadas a cabo nos territórios zapatistas: anarquismos, socialismos, comunismos, lutas indígenas, fundiárias e ecológicas, entre outras tantas espalhadas por distintas regiões do planeta, debruçam-se desde óticas variadas sobre a experiência zapatista e seus entrelaçamentos com suas pautas e perspectivas próprias.

Nesta coluna, dedicada a pensar o futebol enquanto campo aberto de elaboração política e invenção de modos de vida, a efeméride dos 40 anos do EZLN nos oportuniza a possibilidade de esmiuçar os enredamentos entre o universo esportivo e as práticas constituídas na existência daqueles/as que vivem juntos nos territórios zapatistas. Estes cruzamentos evidenciam-se em alguns episódios – como a conhecida aproximação entre a Internazionale de Milão e o EZLN, iniciada em 2004 –, mas também se expressam em outras ações desenvolvidas nas comunidades, assim como em declarações, comunicados e escritos que postulam os inventivos indicadores do que seria ou poderia vir a ser um futebol zapatista.

De antemão, alguma contextualização sobre a trajetória do EZLN e suas realizações práticas me parece necessária, de modo a situar a singularidade das experiências de autonomia ensaiadas na vida dos territórios zapatistas e suas populações. Sua história remete à extensa tradição de resistência das populações indígenas, configurada ao longo de quatro séculos de colonialismo, e reordenada em novos antagonismos políticos a partir da constituição do México independente, bem como da Revolução ocorrida entre 1910 e 1917 [1]. As origens específicas do EZLN, entretanto, são traçadas a partir de um contexto específico: desde a década de 60, pelo menos, a região da Selva Lacandona, no estado de Chiapas, abrigava a atuação de distintos grupos políticos, tais como movimentos sociorreligiosos – pautados nos ideais da “Teologia da Libertação” – e grupos maoístas oriundos de outras regiões do país, que de formas distintas, vinham elaborando experimentos de politização junto às populações locais, majoritariamente indígenas [2].

A realização em 1974 do Primeiro Congresso Indígena, em San Cristóbal de Las Casas, fortaleceu laços organizativos entre esta população – sobretudo em torno da questão fundiária –, estimulando o surgimento de diferentes organizações ao longo da década seguinte [3]. De tais cruzamentos derivaram as condições que culminariam na formação do EZLN: a participação de membros das Forças de Libertação Nacional (FLN) advindos de outras regiões mexicanas neste processo organizativo, estabelecendo contato direto com grupos indígenas politicamente radicalizados, levou à criação (oficializada em 17 de novembro de 1983) da organização político-militar então nomeada Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Sua fundação, de acordo com relatos zapatistas, foi levada a cabo na Selva Lacandona por um grupo original de seis pessoas, formado na proporção de três mestiços e três indígenas, cinco homens e uma mulher [4].

Ao longo dos meses e anos seguintes, o grupo se estabeleceu na Selva, recebendo mais alguns militantes, como o próprio indivíduo que viria a se tornar o “Subcomandante Insurgente Marcos”, integrado ao acampamento no verão de 1984 junto a um companheiro e uma companheira indígenas [5]. A partir de 1985 se iniciaram os contatos com comunidades originárias, permeando sua formação política e recrutando novos militantes. Para além dos quadros de base militares, também crescia significativamente o número de zapatistas civis (denominados “bases de apoio”), fundamentais no suporte material do movimento guerrilheiro [6].

Neste processo, os fundamentos ideológicos do FLN incorporados ao EZLN em sua formação – apontados por Fábio Alkmin como “uma mescla de nacionalismo revolucionário cardenista, marxismo-leninismo, castrismo-guevarismo e aspectos do maoísmo em sua vertente vietnamita” [7] – progressivamente passaram a se diluir. À medida em que absorviam as perspectivas políticas indígenas, os primeiros zapatistas ressignificavam suas pautas e matizes ideológicos originais: conforme salientado pelo próprio Subcomandante Marcos em escritos posteriores, os indígenas da Selva Lancandona não eram “cegos a quem se tinha que abrir os olhos”, mas parte de um movimento “com muita tradição de luta, com muita experiência, muito resistente, muito inteligente também” [8].

Um dos exemplos mais notáveis desta transformação é assinalado por Fábio Alkmin em torno da “paulatina mudança na ideia leninista de tomada de poder do Estado, pela tentativa de sua diluição” [9]. Se tal redirecionamento se evidenciaria na construção da experiência política zapatista a partir de 1994, sua fundamentação já vinha operando no processo de expansão do EZLN enquanto organização clandestina militarizada durante a década de 80. Conforme destacado por Jérôme Baschet, esse desvio seria exposto pelo próprio Subcomandante Marcos pouco tempo depois do levante de 1º de janeiro: “a tomada do poder? Não, apenas algo mais difícil: um mundo novo” [10].

Durante os primeiros anos da organização, por sua vez, “foi necessário que aquilo que era inicialmente o EZLN se transformasse o suficiente para que as comunidades indígenas pudessem se apropriar dele. Sem isso, ele não teria conseguido perdurar e crescer tanto” [11]. Esse processo de flexibilização, ou hibridização, efetivaria a transformação definitiva do EZLN em uma organização política militarizada primordialmente indígena, cuja pressuposta função vanguardista (no esquema leninista original) era abandonada em função de um aprendizado revolucionário com as perspectivas indígenas de luta. Nos termos do Subcomandante Marcos, “não estávamos ensinando ninguém a resistir. Estávamos nos convertendo em alunos dessa escola de resistência daqueles que já estavam há cinco séculos fazendo isso” [12].

Em consonância com os balanços formulados pelo Subcomandante em distintas ocasiões, a bibliografia sobre a formação do EZLN parece concordar na relevância deste aspecto para a expansão numérica dos componentes da organização, assim como para a elaboração criativa de proposições originais na construção de sua experiência política. Adentrados os anos 90, caracterizados por um aprofundamento de reformas neoliberais conduzidas na esfera macropolítica mexicana, o EZLN encontrava-se em condições bastante amadurecidas de organização, sobretudo em comparação com outros movimentos chiapanecos. A revogação das políticas redistributivas de terras conduzida pelo presidente Salinas de Gortari, imposta sob uma discursividade de pretensa modernização, foi contestada por massivas mobilizações indígenas, nas quais pôde-se testar o nível de organização política das comunidades afiliadas ao EZLN [13]. Consultas realizadas junto a estas apontaram uma notável maioria favorável a um levante armado [14], e no primeiro dia de janeiro de 1994 – mesma data em que entrava em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte – cerca de dois a três mil zapatistas se levantaram em armas e tomaram sete municípios de Chiapas. Suas demandas, praticamente idênticas às do Congresso Indígena de 1974 e apresentadas na assim intitulada “Declaração da Selva Lacandona”, eram por “abrigo, terra, trabalho, saúde, educação, alimentação, liberdade, independência, justiça, democracia e paz” [15].

A resposta do governo mexicano foi rápida, e por doze dias o EZLN esteve em guerra contra as forças militares nacionais, até que a pressão da sociedade civil levou à abertura de uma via política de negociação com o governo. Encerrava-se, nos termos do Subcomandante Marcos, a etapa do “fogo”, e iniciava-se a etapa da “palavra” [16], na qual o debate com o governo federal seria conduzido simultaneamente a um amplo processo de intercâmbio com a sociedade civil mexicana. Ao mesmo tempo em que os zapatistas propunham – em sua “Segunda Declaração da Selva Lacandona” – que se repensasse o problema do poder e a formulação de uma nova cultura política [17], estabeleciam-se canais de diálogo com a população, apontados pelo Subcomandante Marcos enquanto vias fundamentais para o surgimento de um “zapatismo civil no México e no resto do mundo, gente que pensa como nós, que luta pela mesma coisa, mas que não está armada nem usa um pasamontaña[18].

A influência deste processo de intercâmbio com a sociedade civil se expressaria com ênfase na ambientação, nos anos seguintes, das tratativas com o governo federal mexicano. Especialmente nas situações de endurecimento repressivo, ocorridas em distintas ocasiões, as vozes civis viriam a desempenhar um papel proeminente de pressão: de tal modo, se por um lado a força material do EZLN obtinha notável sustentação através de suas chamadas “bases de apoio” – as próprias populações indígenas residentes nas comunidades insurgentes e filiadas à organização, estimadas por distintas fontes entre 30, 40 ou até mesmo 250 mil pessoas [19] – por outro, o apoio e intercâmbio estabelecido com outros grupos, organizações e entidades também colaborou, no debate público, com a defesa de sua experiência autônoma.

Tensões, conflitos e negociações permearam o longo caminho percorrido, até a consolidação de certa garantia para a manutenção da autonomia nos territórios das comunidades zapatistas. A forma desta autonomia assumiu contornos mais definidos especialmente a partir de 1997, quando se aprofundou a organização dos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas (MAREZ), e implementou-se, nos mesmos, a criação de instituições como escolas e clínicas de saúde zapatistas. Entretanto, visando superar a existência de desigualdades administrativas vislumbradas entre algumas comunidades – produzidas a partir dos diferentes níveis de organização política, bem como do apoio específico de grupos da sociedade civil –, empreendeu-se a partir de 2003 uma reforma estrutural, configurando as bases da organização autônoma até hoje existente nos territórios, com pontuais variações.

Tal estrutura caracteriza-se, em linhas gerais, por três diferentes escalas geográficas: um nível comunitário, um nível municipal e um nível regional (referente às chamadas “zonas”). Em cada um desses níveis se estabelecem assembleias – nas quais se constitui o respaldo político para a deliberação de quaisquer propostas e decisões – e autoridades são eleitas periodicamente [20]. A atuação destas, por sua vez, pauta-se fundamentalmente pelo princípio zapatista do “mandar-obedecendo”, implicando todos/as que cumpram quaisquer funções nesta estrutura a fazer “estritamente o que foi pautado pelos acordos, consultas e deliberações daqueles a quem representa” [21]. As “zonas” também são chamadas de “caracóis”, aludindo a seu movimento lento e vagaroso, mas que não deixa de avançar, e suas bases centrais se estabelecem, nos termos de Fábio Alkmin, como espaços de “encontro político e cultural entre os membros dos MAREZ, e entre estes e a sociedade civil”. Nestes locais, além de estruturas para hospedagem (de zapatistas e outros visitantes), encontram-se “cozinhas coletivas, mercearias, galpões, escritórios com internet, oficinas para consertos, quadras de esporte, cooperativas e, em alguns casos, rádios comunitárias, clínicas de saúde e escolas autônomas” [22].

A construção permanente desta “autonomia em resistência” (nos termos zapatistas) [23] ainda hoje encontra-se em situação de instabilidade, sobretudo por conta da atuação de milícias paramilitares contra-insurgentes [24]. Neste texto não mergulharemos em seus detalhes, nem tampouco traçaremos uma cronologia completa do processo: o objetivo da contextualização apresentada até aqui se debruça, primordialmente, na apreensão das estruturas políticas da autonomia zapatista, de alguns de seus valores representativos, e da profícua construção de plataformas de diálogo e intercâmbio, estabelecidas com outros grupos, vozes e agentes sociais. A elaboração destas últimas nos interessa particularmente à medida em que comportaram, ao longo dos anos, distintos eventos emblemáticos, que revelam os entrelaçamentos da luta zapatista com o universo futebolístico.

Ao mesmo tempo, a consolidação dessas plataformas e a presença do futebol nas gramáticas de sua interlocução certamente não teria sido possível – nem interessante – se os caminhos do processo de construção autônoma da experiência zapatista não se debruçassem fundamentalmente sobre a vida. Em texto publicado em maio de 2014, o ex-Subcomandante Marcos – então Subcomandante Insurgente Galeano [25] – recapitula os acontecimentos do ano de 1994, e ressalta:

Ninguém escutou então, mas nos primeiros balbucios que foram as nossas palavras avisamos que nosso dilema não estava entre negociar ou combater, mas entre morrer e viver. […] Nos deparamos com essa pergunta e esse dilema. E escolhemos. E no lugar de nos dedicar a formar guerrilheiros, soldados e esquadrões, preparamos promotores de educação, de saúde, e foram se levantando as bases da autonomia que hoje deixa o mundo maravilhado. Em vez de construir quartéis, melhorar nosso armamento, em vez de levantar muros e trincheiras, construíram-se escolas, construíram-se hospitais e centros de saúde, melhoramos nossas condições de vida. Em lugar de lutar para ocupar um lugar no Partenón das mortes individualizadas dos de baixo, escolhemos construir a vida [26].

A centralidade desta “construção da vida”, levada a cabo continuamente na existência das comunidades, se desdobra em distintas esferas valorizadas pela atuação política zapatista. O esporte não poderia deixar de ser uma destas, assim como outras expressões entrecruzadas pelo tripé das artes, das ciências e dos povos originários, elencados pelo ex-Subcomandante Marcos (então Galeano), como colunas perseverantes (e sobreviventes) de sustentação da possibilidade de um mundo melhor [27]. A relevância que lhe é atribuída percebe-se, por exemplo, em sua inclusão na convocatória de eventos como o “Encontro internacional, político, artístico, esportivo e cultural de mulheres que lutam”, realizado no caracol zapatista da Zona Tzotz Choj, em 2018 [28]. Na ocasião de sua abertura, no dia 8 de março, o Encontro contou com a disputa de uma partida de duas equipes formadas integralmente por mulheres zapatistas: a equipe Arcoiris Rebelde, formada por integrantes do caracol “La realidad”, e a equipe Jóvenas Rebeldes, representando o caracol “Oventic” [29].

Além dos rostos cobertos com pasamontañas, as jogadoras evidentemente não traziam nomes às costas das vestimentas, embora algumas ostentassem codinomes de guerra. As regras previamente definidas para a peleja, por sua vez, incluíam uma particularidade singular: a cada gol marcado, sua autora deveria se dirigir a uma lousa postada à beira do campo e escrever uma frase relacionada ao Encontro. A notável superioridade da Arcoiris Rebelde se expressou no elástico resultado final de 6 a 0, celebrado coletivamente de forma amistosa. As frases inscritas na lousa, por sua vez, expressavam uma variedade de escalas e tópicos relacionados ao evento: “Bem vindas as companheiras de diferentes cidades”, “Este gol foi para vocês”, “Sempre as levaremos no coração”, “Esse gol é para a locutora Marichuy [que narrava a partida ao vivo]”, “Que morra o capitalismo e que vivam as mulheres” e “Viva as mulheres do mundo” [30].

A importância da partida disputada na abertura do Encontro, certamente, expressa correspondência com a relevância do futebol nas comunidades zapatistas, onde o esporte é amplamente praticado por homens e mulheres (embora não tanto quanto o basquete, modalidade ainda predileta de boa parte de suas populações) [32]. Paralelamente a este interesse cultivado no interior das comunidades, em variadas ocasiões o futebol também se incorporou – como elemento mediador – ao amplo repertório de interlocuções estabelecidas pelo EZLN com diferentes indivíduos, grupos e organizações sociais, angariando formas de apoio muito variadas ao processo de construção de sua autonomia.

Uma das primeiras expressões deste entrecruzamento se manifestou em uma carta enviada pelo Subcomandante Marcos ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, em julho de 1996 [33]. Na ocasião, o zapatista já se notabilizava por seu estilo literário singular – carregado de tons bem humorados –, explicitado no conteúdo da carta, por exemplo, em desejos dirigidos a Galeano de boa digestão com o mate (infusão tipicamente consumida pelos uruguaios). No texto, o Subcomandante também perguntava ao escritor, torcedor do Nacional, como andava a situação do Peñarol na tabela.

Para além das anedóticas provocações dirigidas a Galeano, entretanto, a carta também compartilha a belíssima narração de alguns episódios vivenciados junto ao menino indígena Olivio. No começo do texto, a criança chuta bolas com o ocupado Major Moisés, que procura mandá-las cada vez mais longe para se ver livre do jogo e retornar a seus afazeres. O Major logo se vai, e Olivio, sob o olhar do Subcomandante Marcos, dribla os cachorros deitados no campinho e deixa para trás outras crianças desinteressadas do jogo. Quando já não há mais nada entre o jogador e o gol formado por arbustos, Olivio subitamente deserta da própria partida: vê um pássaro próximo da meta, abandona a bola e busca seu estilingue para tentar atingi-lo. Mudança brusca que, nos termos do Subcomandante, deixa o jogo tão inacabado quanto um beijo esquecido pendurado nos lábios.

Arrebatado pela incompletude do momento futebolístico, o Subcomandante não se contém:

[…] como torcedor que vê traídos os valores supremos do gênero humano (quer dizer, os que têm a ver com o futebol), saltei das arquibancadas (em realidade estava sentado em um banquinho de troncos), e fui reclamar furiosamente ao Olivio sua falta de pudor, de profissionalismo, de espírito esportivo, de ignorante da lei sagrada que ordena que o futebolista se entregue à paixão por inteiro. O Olivio me vê vindo e sorri. Eu me detenho, subitamente, fico congelado, petrificado, imóvel. Mas não creia, Eduardo, que é por ternura que me detenho. Não é o terno sorriso de Olivio o que me paralisa. É o estilingue que tem em mãos… [34]

Essa anedota futebolística narrada pelo Subcomandante Marcos constitui a maior parte da carta, oficialmente endereçada não apenas ao escritor Eduardo Galeano, mas também aos integrantes do evento “Uruguay por Chiapas”, organizado no país sul americano em solidariedade à luta zapatista. Sua ambientação, seus personagens e seu enredo indicam a construção de uma nova linguagem política, particularmente trabalhada pelos zapatistas em sua interlocução com grupos e militantes de outras partes do México e do mundo: uma linguagem que deserta das durezas técnicas e burocráticas da oficialidade – frequentemente burlando-se destas –, para povoar-se de elementos constitutivos da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, reveste-se de uma inventividade profunda, que se organiza enquanto exercício político para imaginar “um mundo onde caibam muitos mundos” [35].

Em 1999, um novo episódio se incorporou ao inventário de interlocuções estabelecidas através da prática futebolística. Na ocasião, uma delegação do EZLN se encontrava na Cidade do México articulando a realização de uma Consulta Nacional Sobre Direitos e Cultura Indígena, levada a cabo pelos zapatistas como parte de suas iniciativas pelo cumprimento dos Acordos de San Andres. Este tratado, firmado em 1996 durante negociações com o governo, estruturava-se em torno da demanda indígena por autonomia, estabelecida “conforme as necessidades ou condições de cada grupo étnico, incluindo, portanto, autogoverno, território, competências próprias e pluralismo jurídico” [36]. Fábio Alkmin pontua que o cumprimento destes acordos havia se tornado, desde então, “um dos eixos centrais das demandas políticas zapatistas” [37].

A equipe do EZLN, na partida organizada por Javier Aguirre em 15 de março de 1999 [40].

Presentes na Cidade do México em 1999, os delegados zapatistas participaram de atos políticos, reuniões, comitês e encontros com grupos diversos da sociedade civil, com o objetivo de difundir a Consulta. Neste contexto, foram convidados pelo ex-futebolista Javier Aguirre, então técnico do Pachuca, para a disputa de um amistoso contra um combinado de ex-jogadores. Incorporado ao calendário de compromissos políticos estabelecidos pelos militantes, o jogo ocorreu no dia 15 de março de 1999, no Estádio Jesús “Palillo” Martínez: lá os zapatistas disputaram a partida com os rostos cobertos por pasamontañas, utilizando chuteiras emprestadas, e sofrendo um revés de 5 a 3 contra a equipe liderada por Aguirre [38]. Resultado que, de acordo com bem humorado comentário publicado posteriormente pelo Subcomandante Marcos, não constituía nenhuma derrota: “não perdemos, nos faltou tempo para ganhar” [39].

Em novembro do mesmo ano, um outro evento futebolístico marcante veio a ocorrer nos próprios territórios zapatistas, que receberam a visita da equipe dos Easton Cowboys & Cowgirls, clube criado em 1992 na cidade inglesa de Bristol. Originada no contexto das subculturas punk e antifascista do bairro de Easton, a equipe se distinguiu ao longo das décadas seguintes enquanto um baluarte simbólico de aproximações entre esporte e política [41]. Parte de seu notável reconhecimento neste sentido se deu, certamente, pelas diversas viagens que realizou, disputando partidas de futebol contra equipes amadoras de proposta similar [42].

Em 1999, o clube de Easton se destacou enquanto a primeira equipe europeia a visitar as regiões controladas pelo EZLN e disputar partidas e torneios contra times locais [43]. Uma nova turnê futebolística foi realizada em janeiro de 2001, contando, no contexto, com a participação do grafiteiro Banksy, que teria atuado como goleiro em algumas partidas, além de pintar murais nos territórios zapatistas. O mural com a inscrição “A la libertad por el futbol” – cuja imagem viria a notabilizar-se enquanto símbolo de um futebol insurgente – foi produzido nesta ocasião [44], e posteriormente, uma camiseta elaborada pelo artista junto ao clube teve o lucro integral de suas vendas revertido para as comunidades zapatistas. No ano 2000, alguns integrantes do Easton Cowboys & Cowgirls também colaboraram na criação do KIPTIK (“força interior” em tzetzal, idioma de uma das etnias majoritárias dos territórios zapatistas), um grupo de ajuda internacional voltado à arrecadação de fundos para projetos desenvolvidos junto às comunidades zapatistas [45].

Mural produzido pelo grafiteiro Banksy em Chiapas. Foto de Christian Peverieri [46].

Anos depois, uma nova e insólita aproximação futebolística se estabeleceu entre o EZLN e, desta vez, um destacado clube do futebol profissional europeu. Em 2004, a Internazionale de Milão, presidida por Massimo Moratti – um bilionário empresário do petróleo conhecido por apresentar “simpatias pela centro-esquerda” [47] –, enviou uma doação de cerca de 5 mil euros, arrecadados entre multas pagas por atletas ao clube durante a temporada anterior [48]. Um recente ataque paramilitar que prejudicara o abastecimento de água de comunidades zapatistas foi apresentado como a ocasião que justificava a doação, entregue pessoalmente pelo dirigente interista Bruno Bartolozzi junto a equipamentos esportivos e indumentária do clube. Dentre as doações destacava-se uma camiseta da Inter com o nome do jogador argentino Javier Zanetti, capitão do time que, além de protagonizar a aproximação do clube com a causa zapatista, também colaborou diretamente com a doação de uma ambulância para a clínica de saúde local [49].

A despeito de alinhamentos políticos mais contundentes, a iniciativa da Inter de Milão foi interpretada por veículos da imprensa enquanto um desdobramento das práticas mantidas pelo clube em relação a conflitos armados existentes em distintas partes do mundo: através de um convênio com entidades assistenciais, a Inter enviou donativos ao Afeganistão e ao Iraque durante as invasões estadunidenses executadas no início da década de 2000, por exemplo [50]. A partir de 2012, um projeto intitulado “Inter Campus” passou a promover oficinas e atividades vinculadas ao futebol para as crianças das comunidades localizadas nos territórios zapatistas [51].

Bruno Bartolozzi entregando as doações da Inter de Milão ao EZLN, no caracol Oventic, Chiapas [52].

Em 2005, uma carta assinada pelo Subcomandante Marcos foi encaminhada ao presidente interista Massimo Moratti, agradecendo os donativos e convidando a equipe a disputar um amistoso contra um selecionado zapatista. Moratti respondeu prontamente ao convite, que qualificou como uma “simpática provocação”, sinalizando que estaria disposto a colaborar com a organização da partida, além de afirmar que “cada revolução começa em sua própria área de pênalti e finaliza no gol adversário” [53].

A esta resposta o Subcomandante retrucou com uma carta mais extensa, na qual detalhava ideias sobre o evento esportivo em questão [54]. No início do texto, afirmava que para além de porta voz do EZLN, também fora designado, por unanimidade, Diretor Técnico e Encarregado das Relações Intergalácticas da Seleção Zapatista de Futebol. Nesta condição, propunha algumas expansões à ideia do amistoso original, sugerindo, primeiramente, a realização de um enfrentamento no Estádio Olímpico (localizado na Cidade do México), com o direcionamento do valor arrecadado pela venda de ingressos às comunidades indígenas afetadas pelos ataques de grupos paramilitares. Em seguida, aproveitando-se da presença da equipe italiana em solo mexicano, outra partida poderia ser disputada em Guadalajara, encaminhando a arrecadação ao custeio de apoio jurídico a jovens altermundistas injustamente presos no estado em questão.

O subcomandante sugeria que as partidas poderiam ser apitadas por Diego Armando Maradona, e contar com os ex-jogadores Javier Aguirre e Jorge Valdano como assistentes, além do brasileiro Sócrates como quarto árbitro. Os jogos, transmitidos pelo “Sistema Zapatista de Televisión Intergaláctica”, poderiam ser comentados por Eduardo Galeano e Mario Benedetti, e na transmissão italiana, por Gianni Miná e Pedro Luis Sullo. Além disso, um convite seria dirigido às comunidades LGBT – especialmente às pessoas trans – para que ocupassem massivamente as arquibancadas, visto que “não há unicamente dois sexos e não existe um só mundo, e é sempre recomendável que os perseguidos por sua diferença compartilhem alegrias e apoios sem deixar de ser diferentes” [55]. Na ótica do Subcomandante Marcos, tais presenças certamente provocariam censuras televisivas, além de escandalizar ultra-direitistas e embaraçar os interistas, elevando a moral e o ânimo da equipe zapatista.

A esta altura, de acordo com o Subcomandante, a turnê conjunta das equipes já teria fôlego para seguir rumo aos Estados Unidos, onde poderia disputar uma partida em Los Angeles, direcionando os valores arrecadados à assessoria legal de imigrantes indocumentados perseguidos pelo governo californiano, à época chefiado pelo ator Arnold Schwarzenegger. Além disso, o “dream team zapatista levaria uma grande faixa em que se leria ‘liberdade para Mumia Abu Jamal e Leonard Peltier’” [56], especialmente nesta partida. Caso o governo de George Bush não permitisse a entrada da equipe chiapaneca no território estadunidense, a partida poderia ser deslocada para o “digno solo cubano”, preferencialmente às portas da base de Guantánamo. Neste caso, cada integrante de ambas equipes deveria levar, de acordo com o Subcomandante, um quilo de alimentos e remédios como sinal de protesto contra o embargo promovido pelo governo estadunidense.

Em solo europeu, duas partidas poderiam ser disputadas na Itália, uma delas no estádio San Siro (a casa da Inter), e outro onde os interistas preferissem: possivelmente em Roma, já que, conforme o Subcomandante assinalava, “dizem que ‘todas as partidas levam a Roma… ou será ‘todos os caminhos levam a Roma?’… enfim, dá no mesmo” [57]. A bilheteria da primeira partida seria dedicada a apoiar financeiramente os imigrantes de diferentes nacionalidades que se viam perseguidos pelos governos da União Europeia, e o valor arrecadado pela segunda partida seria encaminhado àquilo que os interistas preferissem. A única exigência zapatista seria a realização de uma visita à cidade de Gênova, para pintar caracóis na estátua de Cristovão Colombo e levar uma flor à localidade onde o jovem anarquista Carlo Giuliani fora morto pela polícia, durante manifestações contra a cúpula do G8 em 2001. A provável multa pelo dano causado à estátua de Colombo ficaria a cargo da Inter, ao passo que a flor para Giuliani ficaria por conta do EZLN.

Por fim, aproveitando a presença zapatista na Europa, uma partida também poderia ser realizada no país basco, território notabilizado por sua tradição de resistência. Lá os desportistas militantes aproveitariam para se manifestar contra o banco BBVA-Bancomer, à época dedicado a criminalizar a ajuda humanitária enviada a comunidades indígenas, de acordo com o Subcomandante.

A esta altura da carta, dando-se conta de que já se somavam sete partidas possíveis – “o que não está mal, porque assim disputamos a audiência da Eurocopa, da Libertadores e das eliminatórias para a Copa do Mundo” [58] – o Subcomandante Marcos propunha que a equipe vencedora de quatro partidas obtivesse o troféu “Pozol de Barro”, com a ressalva de que caso a equipe zapatista perdesse mais de três encontros, o torneio deveria ser anulado. A carta se encaminha para o final com a apresentação de algumas das armas secretas dos futebolistas zapatistas, tais como o fato de que sua seleção seria mista (composta por homens e mulheres), e que jogariam com as chamadas botas “mineras” (o que por vezes estouraria as bolas). Além disso, segundo o costume zapatista, a partida só poderia acabar quando nenhum jogador de uma das equipes conseguisse mais se manter em pé. Por fim, anuncia-se que o EZLN poderia discretamente contar com reforços secretos – tais como o atleta Adolfo “Bofo” Bautista e a atacante Maribel “Marigol” Domínguez, destacados futebolistas mexicanos à época –, além de atuar com um uniforme camaleônico, que em situação de desvantagem, manifestaria “listras negras e azuis, confundindo ao rival, ao árbitro… e ao público” [59].

O inventário amplamente imaginativo e bem humorado de referências elencadas pela carta do Subcomandante Marcos foi recebido por boa parte da imprensa esportiva da época de forma literal: periódicos como o espanhol El Mundo chegaram a noticiar a troca de cartas entre os zapatistas e Massimo Moratti como tratativas para a organização do torneio em questão [60], o que evidentemente não era concretamente ambicionado pelo Subcomandante ou qualquer outro porta voz do EZLN. O conteúdo da carta, assim como muitos dos textos produzidos em seu peculiar estilo literário, mobilizava a ferramenta futebolística para evidenciar questões políticas e sociais, tais como a criminalização de processos migratórios, as prisões arbitrárias promovidas contra militantes, as lutas indígenas e a memória de militantes assassinados.

O encerramento do texto propunha, por fim, o enredamento – talvez definitivo – entre as possibilidades do futebol e as sensibilidades de mundo dos zapatistas. Evidenciando seu caráter imaginativo sem despojá-lo de sua potência política, o Subcomandante Marcos pontuava: “com tudo isso (e algumas outras surpresas) talvez revolucionaríamos o futebol mundial e, então, talvez, ele deixaria de ser somente um negócio e seria, outra vez, um jogo divertido. Um jogo feito, como você [Moratti] bem diz, de sentimentos verdadeiros” [61].

Podemos concluir que, longe de configurar um pragmático programa – cuja execução literal encaminharia à referida revolução do esporte –, as palavras zapatistas sobre o fabuloso encontro futebolístico sugerem uma profícua polinização da imaginação transformadora, textualmente delineada no campo de um inventivo possível. Nos ensinam, portanto, a desertar dos marcos divisores (e opositores) entre imaginação e ação: afinal, a partir da narração da possibilidade de cada uma das sete partidas que viriam a compor o torneio, todas elas e seus significados e caracteres sociopolíticos realizavam-se e passavam a existir de fato.

Ao mesmo tempo, a experiência dos 40 anos de luta do EZLN – e dos 29 percorridos desde o levante de 1994 – assinala concretamente que a construção da autonomia em resistência zapatista transcende a mera abstração utópica. Entre essas vias – ou em um terceiro e outro caminho – a marcha vagarosa e persistente do caracol parece imaginar, experimentar e vivenciar um outro futebol: em cada um dos episódios relatados neste texto, mas também nos múltiplos toques de bola desenhados desde os anseios de autonomia em Chiapas e outras partes, as relações zapatistas com o esporte também se inscrevem na insistente construção de um mundo onde caibam vários mundos. Ou, no âmbito das quatro linhas, de um futebol onde caibam vários futebóis.

Micael Zaramella é historiador, pesquisador e torcedor de arquibancada do Palmeiras. Mestre em História Social (FFLCH-USP) e autor do livro “No gramado em que a luta o aguarda: antifascismo e a disputa pela democracia no Palmeiras (Ed. Autonomia Literária, 2022), se interessa pelas relações entre futebol e organização política. Coordena o Grupo de Estudos Palestrinos, vinculado ao Coletivo Ocupa Palestra – do qual faz parte.

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