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Por Mayara Dionizio

contra-ataque: o que a literatura ensina à política

Paris, julho de 2023

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Tenho insistido sobre as relações entre literatura e subversão política. É que me parece, a partir de leituras que me chegam, que paira sobre essas duas realizações uma dissociação, ou ainda uma associação forçada. Sim, entendo quando dizem “mas tudo é político”, de fato o é. Mas parece que resta sempre uma busca em justificar como que determinado discurso se faz político. A princípio, a literatura – enquanto realização de uma ausência que lhe é própria – não necessita de um aporte político para se realizar. E a justificativa em torno da literatura interessa aos seus “defensores” e não a ela, pois ela sabe que a sua realização independe de sua legitimidade. Agora, em relação à política, ela necessita da linguagem para se realizar e da literatura para se subverter. Com isso, não estou defendendo um paragone entre as artes. Todas as artes são uma abertura na fenda do sentido para um além-do-sentido. Mas é que a política e a sua institucionalização acontecem por meio do discurso.

Voltemos aos antigos. Remonta-se que se deve também ao teatro e à narrativa literária a institucionalização da palavra política e jurídica. E, no sentido artaudiano, ainda ouso dizer que foi justamente esses modos de institucionalizar a palavra – os mesmos que se voltaram mais tarde, principalmente a partir do Renascimento, à literatura – que levaram a um engessamento do teatro e do fazer literário. É que fazer de realizações irruptivas e subversivas meios, ou mesmo fins, para a legitimação de linguagens fechadas, ordinárias e designativas, tende a tentar esgotar o inesgotável lhe impondo sempre a necessidade de uma forma. O irônico nisto tudo é que a política, quando palavra de Lei, como métrica e lógica, nada pode contra esse transbordamento. E pela mesma regra que essas instituições buscam se impor, e impor meios de produções para essas realizações, elas são subvertidas. Dito de outro modo: as regras que são impostas à arte servem como limite a ser ultrapassado, transbordado, mesmo porque ela não se deixa capturar. Como capturar a ausência que precede e sucede todo o sentido? Como capturar aquilo que itera e suplementa tanto a regra quanto a si mesmo? É que normalmente se atribui a arte à obra como presença, mas o que não se considera é que a obra diz justamente ao contrário do que a sua fixidez. A obra escapa à obra, ela sempre diz mais do que a nossa razão lhe infligi, lhe impõe como sentido. É como se existindo neste mundo, nesta realidade, ela se abrisse em uma fenda a uma outra realidade que só ela habita. Um lugar outro descentrado, onde ela se refaz e quebra todos os sentidos pelos quais tentamos captura-la. Não há como olhar para Os operários, de Tarsila do Amaral, e contê-lo somente dentro do conceito de trabalho sem que se abra a tudo aquilo que o trabalho pode ser eternamente. Para toda a realização daquela obra durante a eternidade de sua realização. Não há como ler um livro e fixá-lo a partir de um sentido que não se altere, que não se renove a cada leitura, pois a palavra é um rasgo no tempo e a obra se realiza também quando a lemos, e nós não a realizamos, a legitimamos ou a justificamos. Não há, portanto, como assistir a uma peça teatral e não ser atravessado pelo seu acontecimento incapturável pela memória e cedido ao desgaste que é o esquecimento. A obra de arte nos dispensa.

Dito tudo isso, se arte nos dispensa, porque haveria ela uma dívida existencial para com a política? Daqui, penso que a arte é a única forma de subversão da política, e é então que precisamos mais dela do que ela de nós. É que ela refaz o mundo, altera o sentido das coisas e, por isso, a política institucional não a tolera, a sufoca. Ingênua instituição! A instituição é filha da linguagem e não o contrário. A literatura é aquela que atravessa a linguagem e sequestra a política a levando para um mundo outro: aquele da suspensão da instituição.

Por isso, é intolerável esse encaixotamento da realização literária e da ação política como se ambas não se entretecessem a todo momento. Apesar de entender – entendo, não concordo – certo purismo conservador de alguns com a arte, como se ela não pudesse se misturar com algo “vil” como a política, me soa demasiado estranho esse poder de salvá-la. Se ela nos dispensa é porque a sua realização ultrapassa qualquer lei restritiva, qualquer “verdade” sobre ela, forjando incessantemente um duplo negativo em um movimento eterno daquilo que lhe restringe. A arte não se realiza nas categorias humanas sem lhes fazer de instrumento. Mesmo o escritor, vejam, não passa de um intermediário para a realização da obra; logo depois, ela o dispensa e vai vagabundear por aí. Ela, a obra, deixa-se aos outros: leitores, críticos, línguas e culturas, atravessando assim essa temporalidade vazia que criamos para medir a idade do mundo, da vida e da morte.

Pouco interessante é também essa necessidade de “origem” que apregoam à obra, à linguagem, ao discurso, como se a simples sapiência sobre essa origem nos colocasse diante de objetos imutáveis. A origem, aqui, não é aquela simplesmente datada e bem situada sobre como algo surgiu e porquê; mas, diz respeito à origem enquanto ser da arte, da linguagem, do discurso. Essa busca de teorização do Ser, para melhor domesticar a realização deste Ser. O ser da arte é inalcançável, dele, só nos resta o rastro que se transforma em alguma presença – que é a obra – mas que só revela que algo ali está além de sua materialidade. Por isso, podemos dizer que a literatura teria ensinado a política a se subverter? Talvez, provavelmente. Mas, o que é de extrema relevância, para além de toda ontologia, é que a literatura ensina os seres a falarem de uma outra forma, que diz o contrário do enclausurado dizer institucional, abrindo espaço para o dizer revolucionário. Pode ser que o revolucionário nunca tenha lido um livro de literatura, que não saiba a literatura como subversiva à linguagem, à linguagem institucional da política, mas quando ele fala, usando palavras para se referir contra as instituições, ele está fazendo uso de algo que a literatura ali possibilitou: o dizer contra a ordem, contra as instituições, sobretudo, no caso da literatura, contra a linguagem ordinária mesma.

Não à toa, todas as revoltas foram frequentadas por artistas, mas, sendo mais objetiva ao assunto que trago aqui, o êxtase da literatura leva-os ao caos. Aqueles que saem de suas moradias em busca da revolta, buscam também o acontecimento repentino que os tirará do centro. Ouso dizer: do centro que nunca tiveram ou em que estiveram. É necessária uma certa predisposição à abertura para ser simulacro aberto à arte e para a arte. E então? Então, chego ao grupo Contre-Attaque e ao surrealismo. A participação de Georges Bataille, no movimento surrealista, na companhia de André Breton, sempre o surrealismo nesta companhia, também fez anunciar ao mundo este grupo: « Contre-Attaque ». Union de lutte des intellectuels révolutionnaires. 1935-1936. Contra-atacar à política de extermínio, tal como empregada pela máquina nazista, tal como empregada pela máquina da ordem, pela máquina científica, pelas máquinas que não se revoltam enquanto corpos, só se faz possível com o uso de um pharmákon: a arte. Também por isso o surrealismo foi uma experiência estético-política, realizando um jogo subversivo entre uma e outra. A experiência deste grupo se voltou à exterioridade como soberana. Ou seja, uma soberania que está desde sempre subtraída àqueles que participam de algo que não podem se identificar como membros. Não o podem, isso não se dá por interdição de grupo, mas pela próprio impartilhável daquilo que é impalpável: a experiência que ultrapassa a fixidez e a presença. Por isso, a palavra, ainda que redobrada, ecoada por uma multidão, se mantém no paradoxo de todos e de ninguém. A palavra cria toda condição de união e de dissolvição de toda materialidade existente:

“Contre-Attaque’ é um outro grupo, do qual seria preciso estudar minuciosamente aquilo que tornava sua urgência tal que ele não podia subsistir senão na luta, mais do que por sua existência inativa. Ele não é de alguma maneira senão na rua (prefiguração de maio de 68), quer dizer, no fora. Ele se afirma por panfletos que voam e não deixam rastro. Ele deixa se afixar “programas” políticos enquanto aquilo que o funda é, antes, uma insurreição de pensamento, respostas tácita e implícita à supra-filosofia que conduz Heidegger a não se recusar (momentaneamente) ao Nacional-Socialismo

Continua!

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.