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Por Micael Zaramella

democracia a contrapelo: cultura autoritária e autogestão futebolística durante o regime militar

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Entre os anos de 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime autoritário caracterizado pela sucessão de governos militares – capitaneados por marechais e generais do exército brasileiro –, cujos componentes repressivos são relativamente bem conhecidos. Conforme pontuado pelos historiadores Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez, a ruptura institucional deflagrada pelo golpe de 1964 pretendia “manter afastada das decisões políticas a maioria da população” [1], inaugurando um regime caracterizado por uma cultura política fundamentalmente autoritária. Ao longo de 21 anos, este regime elaborou distintas formas de perseguição, silenciamento, violência e arbitrariedade, articuladas a estratégias repressivas contra seus opositores. Entretanto, o estabelecimento de sua cultura autoritária, ainda que ambicionada e efetivada de diferentes formas ao longo do período, não deve ser contemplada como um dado, mas como o objeto de uma disputa.

Isto porque, ainda que progressivamente implementada através de práticas repressivas e vigilantes, esta cultura se viu permanentemente confrontada: conforme salientado por Mota e Lopez, “as lideranças progressistas e democráticas reagiram ao autoritarismo do novo regime” [2], produzindo uma ampla variedade de formas de resistência. A historiadora Maria Aparecida de Aquino salienta que a “realidade multifacética, móvel e transitória” [3] do regime, em seu conjunto, foi carregada de uma profunda ambiguidade, expressada pela convivência das práticas repressivas com discursividades oficiais que reivindicavam, constantemente, o ideal retórico de “democracia” [4] – até mesmo nos momentos de maior endurecimento.

Inicio este texto ressaltando tal perspectiva – a de que a cultura autoritária do regime militar se estabeleceu em um permanente cenário de disputa – para que possamos vislumbrar a complexidade dos exercícios de autonomia e organização política experimentados, durante aquele período, nos domínios do futebol. Há algo, na composição destes, que escapa às grandes arenas da repressão militar sobre o campo cultural brasileiro, correndo por suas brechas e fissuras: a pressuposição de sua distância em relação aos domínios “letrados” da resistência cultural [5] deriva de uma concepção, fortemente reproduzida no período, que não percebia o futebol enquanto “cultura”. Compartilhada tanto pelos setores conservadores quanto pelo ambiente de circulação do pensamento à esquerda, esta concepção identificava o futebol enquanto objeto passível de manipulação (visando objetivos políticos anteriormente delineados), mas jamais enquanto ambiente de formulação e elaboração criativa, crítica e contraventora.

Anteriormente, já postulei que também reside, neste ponto, uma das heranças que seguimos carregando do regime militar [6]: assim como diversas práticas e imaginários consolidados durante os 21 anos do regime perduram, nos dias atuais, em distintas esferas da sociedade brasileira, a perspectiva de que o futebol pode ser receptáculo de ações políticas, mas jamais o espaço para imaginar e gestar, em si, outros modos de vida, pressupõe uma limitação que o hierarquiza frente aos tradicionais ambientes considerados genuinamente “politizados”. Um dos propósitos desta coluna é, sabidamente, insistir em outra concepção do futebol: campo no qual, mesmo quando o juiz se faz presente, as práticas desviantes e desertoras inventam possibilidades. Nas palavras de Michel de Certeau, táticas astuciosas e teimosas que “escapam à disciplina sem ficarem mesmo assim fora do campo onde [esta] se exerce” [7], e que, no contexto do regime militar brasileiro, vislumbram-se nas experiências de autonomia futebolística que serão discutidas neste texto.

Convém situar, previamente, as formas da cultura autoritária do regime expressadas no campo futebolístico, demonstrando que suas estratégias políticas não ignoravam a relevância consolidada pelo esporte na sociedade brasileira. Há certo consenso na historiografia brasileira do futebol em afirmar que, durante o período, o esporte figurou como um “instrumento” [8] à disposição do regime: o manuseio de seus significados simbólicos e afetivos serviu a distintos horizontes da “utopia autoritária” [9], evidenciados no incentivo à construção de estádios, na mobilização de teor patriótico em torno da Seleção – particularmente na conquista do tricampeonato mundial em 1970 –, e até mesmo na criação da Loteria Esportiva (no mesmo ano), constituindo uma relevante fonte de arrecadação para o governo [10].

A historiografia sobre o período também nos aponta que, nos anos que antecederam a efetiva ruptura institucional de 1964, as redes golpistas político-militares já consideravam a relevância de incorporar o ambiente futebolístico a suas tramas: de acordo com o historiador René Dreifuss, a composição majoritariamente elitista das estruturas diretivas dos grandes clubes esportivos favorecia sua aproximação à articulação do golpe, sob o discurso de que uma “ameaça vermelha” rondaria o país [11]. Os contatos do Estado-Maior golpista aos dirigentes de diversos clubes, de acordo com este autor, incluíam instruções (aparentemente jamais concretizadas) como a criação de “galerias subterrâneas de tiro em seus clubes sociais para o treinamento de sócios” [12]. Variou imensamente, no entanto, o efetivo envolvimento de lideranças clubísticas à trama golpista: mesmo após a concretização do golpe, as relações estabelecidas por boa parte das agremiações com o novo governo se manteriam atenta às formalidades mais convencionais, equivalentes às que se percebiam também em instituições de outras esferas.

Ainda assim, alguns casos de particular envolvimento e alinhamento à construção do Estado autoritário brasileiro pós-64 são elencados pela historiografia, destacando-se nomes como o do vice presidente do São Paulo Futebol Clube, Manoel de Carvalho, que atuava como liderança do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), órgão de disseminação de campanhas anticomunistas criado por oficiais militares e empresários, que conformava um dos principais focos de conspiração golpista [13]. No mesmo clube, o nome de Laudo Natel – presidente da agremiação durante a conclusão das obras de construção do Estádio do Morumbi – figuraria nos anos subsequentes como um dos diversos dirigentes esportivos que mantinham vínculos próximos com o regime. Natel chegou a solicitar a mobilização de forças do Exército para concluir as obras do estádio a tempo de sua inauguração, cuja cerimônia (em 25 de janeiro de 1970) incluiu a presença do presidente militar Emílio Garrastazu Médici [14]. Durante as décadas de 1960 e 1970, Natel também foi nomeado, através de indicações promovidas pelo colégio eleitoral do regime, para os cargos de vice-governador e governador do estado de São Paulo [15].

Outro nome de relevância no cenário esportivo da época, envolvido com as articulações golpistas pré-64 e ativamente alinhado às estruturas políticas do regime, era Wadih Helu, presidente do Sport Club Corinthians Paulista. Em 1964, Helu publicou, em nome da agremiação, notas de saudação ao presidente militar Castello Branco em veículos da imprensa, afirmando que o Brasil iniciava “o mais grandioso ciclo de sua história” [16]. Posteriormente, o mesmo dirigente atuaria como deputado estadual pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) – partido de sustentação do regime –, e como secretário de estado durante o governo de Paulo Maluf em São Paulo (1979-1982) [17]. No comando da agremiação corinthiana entre 1961 e 1971, Helu seria acusado de atuar como um verdadeiro “ditador” na política interna do clube, o que viria a figurar como importante motivação para a criação da principal torcida organizada do clube em 1969, os Gaviões da Fiel [18].

Há de se salientar que tais vínculos e simpatias de figuras dirigentes, tanto pelas articulações golpistas quanto pelo próprio regime instaurado, não necessariamente se expressavam de forma automática na condução das políticas internas das agremiações. Ainda que aproximações mais ou menos íntimas possam ter se verificado em determinados momentos, a existência dos clubes gravitava politicamente imersa nas condições do próprio circuito futebolístico, evidentemente temperado continuamente pela estrutura macropolítica do país e pelas ocasionais aproximações articuladas pelo próprio regime.

Para além da atuação específica de uns e outros dirigentes, e de episódios objetivamente vinculados a um ou outro clube, pesquisadores como José Paulo Florenzano ressaltam a relevante incidência de um imaginário autoritário, cuja penetração na sociedade brasileira não poderia deixar de se expressar diretamente, também, no circuito futebolístico. Se, de acordo com Mota e Lopez, era constatada a existência de “um outro Brasil, rude, autoritário, diverso daquele país generoso e ‘cordial’ dos anos de Juscelino e seus sucessores” [19], a expressão de tal cultura autoritária não transparecia unicamente nas tramas políticas institucionais, mas sobretudo nas subjetividades mobilizadas em torno de componentes sociais cotidianos como o próprio futebol.

Conforme destacado por Florenzano, uma das principais influências do contexto autoritário se expressaram – sobretudo a partir da década de 70 – na ascensão de um futebol caracterizado pela disciplina e pela força, valores próprios da cultura militar que penetravam no circuito esportivo revestidos por um discurso de “modernização” [20]. Por um lado, tal perspectiva via-se amparada em discursividades similares reproduzidas no ambiente europeu [21], organizadas em torno do chamado “futebol força” [22]. Por outro, aspectos que lhe conferiam eficiência e bons resultados eram articulados a partir da própria realidade futebolística brasileira: a conquista do tricampeonato mundial pela Seleção Nacional – profundamente explorada politicamente pelo regime, à época encabeçado pelo general Médici – era compreendida como fruto da boa atuação dos jogadores combinada à organização de modelo militar implementada na Seleção. Tal imaginário, amplamente veiculado pela imprensa do período, rapidamente se difundiu nos ambientes clubísticos:

[…] uma vez encerrado o Mundial, os clubes começaram a copiar a estrutura autoritária imposto ao selecionado, iniciando uma corrida para contratar os homens responsáveis pela experiência vencedora, segundo a interpretação corrente. Na paisagem do futebol brasileiro, a figura do supervisor militar, consolidada pelo papel desempenhado no México pelo capitão Cláudio Coutinho, afigurava-se como a solução ideal para os clubes, os quais se lançavam na disputa pelos poucos profissionais disponíveis no mercado para exercer a referida função [23].

Nesta corrida, Florenzano destaca casos como o do Corinthians, que em dezembro de 1970 “anunciava as primeiras medidas visando adotar uma estrutura militar nos moldes estabelecidos pela Seleção Brasileira através da escolha de um coronel para função de supervisor do elenco” [24]. Chegavam ao clube alvinegro o capitão Castelo Branco, militar vinculado à CBD, e o coronel Nilo Floriano Peixoto, responsáveis pela elaboração e execução de um plano de trabalho voltado à disciplinarização do elenco [25]. O Palmeiras, por sua vez, passava a contar, na mesma época, com o capitão José Bonetti, integrante da comissão militar que acompanhou a Seleção durante a Copa de 70. Para o capitão, o problema central da equipe alviverde “não se achava dentro das quatro linhas, mas sim na indisciplina dos jogadores” [26].

A contratação de supervisores militares rapidamente se espalhou também para outros clubes, que passavam a identificá-los como uma “solução ideal” [27] para a disciplinarização de seus atletas. Nos casos citados de Corinthians e Palmeiras, entretanto, destaca-se não somente a rapidez com que se deu a chegada destes elementos às equipes, mas igualmente, o fracasso imediato das medidas que procuravam se implementar. No Corinthians, as repreensões severas aplicadas pelo supervisor militar Peixoto não surtiam os efeitos esperados, confrontando-se como uma “resistência imediata oferecida pelos jogadores ao exercício autoritário do poder” [28]. No Palmeiras, cenário similar se afigurava, visto que a passagem de Bonetti pelo clube seria “rápida e frustrada […], decepcionando os que imaginavam encontrar nele um mestre da disciplina” [29].

O suposto fracasso destas duas experiências iniciais, entretanto, não significou de modo algum o fim da aproximação entre as esferas militar e esportiva, que permaneceria vigente ao longo da década de 70 expressando-se com evidência nas atuações da Seleção em 1974 e 1978 [30], e também em novas medidas adotadas por estes e outros clubes, nas mais diversas regiões do país. Autores como o sociólogo Maurício Murad, por sua vez, apontam para os componentes do cruzamento entre a cultura militar e o ambiente esportivo nas arquibancadas, sugerindo que o ascendente modelo de torcidas organizadas – que surgia à época em substituição a outras formas de torcer até então predominantes – incorporava valores de uma cultura do regime em sua própria formação. Para o autor, “de carnavalizadas passaram a ser militarizadas, seguindo as doutrinas e os padrões de organização do militarismo então vigente, que se entranhava em todos os setores da sociedade” [31].

Em um próximo texto, pretendo expandir outras interpretações a respeito deste modelo de torcida, enfatizando aspectos do contexto de seu surgimento que nos permitem pensá-las, também, enquanto exercícios de uma politização do cotidiano torcedor: entendo que, para além de mero “espelho” de uma sociedade inundada pela cultura autoritária, o universo das arquibancadas também se apresentava, durante o regime militar, como um rico laboratório de práticas políticas e novas formas de agrupamento e convívio social. Por ora, entretanto, proponho que nos debrucemos especialmente sobre as possibilidades de formação e organização política derivadas do ambiente demarcado pelas quatro linhas – e suas adjacências habitadas pelos futebolistas que protagonizam o universo do esporte em si.

Tais experiências são discutidas com riqueza de detalhes por José Paulo Florenzano, que destaca a singularidade de sua expressão, primeiramente, através de amplos ciclos grevistas estabelecidos durante o governo Médici, período concebido pela historiografia como o mais rígido do regime militar. Somente no ano de 1970, por exemplo, a interrupção das atividades motivadas por atrasos em seus pagamentos mobilizou atletas em clubes como o Cruzeiro, o Botafogo-SP, o Vitória, o América-MG e o Ipiranga-RS [32]. Nos anos seguintes, outras agremiações como o Comercial-SP, o São Bento-SP, o Bahia e o Flamengo também sediariam movimentos similares, revelando o protagonismo dos atletas em um cenário considerado improvável para a mobilização política. A perplexidade do cenário esportivo com tais movimentações se evidenciava em declarações como as do assessor jurídico da Conselho Nacional de Desportos, Roberto Abranches, segundo o qual “o caso da greve não está previsto no Código Brasileiro Disciplinar de Futebol, sendo matéria nova até para os tribunais esportivos” [33].

Os movimentos grevistas, inicialmente articulados em torno de reivindicações salariais, progressivamente também se direcionaram a outras expressões da cultura autoritária incrustadas nos ambientes clubísticos. Parte significativa dos debates se debruçava sobre as contradições da Lei do Passe, que vinculava os atletas aos clubes para além de sua relação laboral, ao mesmo tempo em que progressivamente estruturava-se uma luta comum pela organização de sindicatos [34]. De acordo com Florenzano, o conjunto destas práticas – protagonizadas pelos próprios atletas – surpreendia os demais agentes do ambiente esportivo, especialmente “pela imagem de imobilismo sedimentada no imaginário social a respeito desta categoria profissional” [35], mas também por “entrar em cena justamente no contexto da militarização da sociedade brasileira” [36].

No mesmo período, são dignos de nota os singulares exercícios de democracia direta praticados por conjuntos de atletas, em meio às estruturas autoritárias que predominavam internamente nos clubes (em sintonia ao cenário macropolítico brasileiro). Florenzano elenca iniciativas que, em perspectiva cronológica, remetem inicialmente ao Santos da década de 60, identificado pelo antropólogo enquanto “epítome” de um “amplo processo de educação democrática” [37] entre atletas. Naquela equipe, o saber-fazer dos próprios futebolistas – entre os quais, Pelé – assumia o protagonismo na composição dos planos de jogo, construídos, praticados e aperfeiçoados pelos próprios jogadores em treinos frequentemente organizados e conduzidos por eles mesmos [38]. Não à toa, o Santos estaria no centro dos debates em torno da reconfiguração do papel do técnico, insuflados pela penetração dos valores hierárquicos e disciplinares da cultura autoritária do regime militar no ambiente futebolístico: conforme apontado por Florenzano, “ainda no início dos anos 70, o técnico Antoninho do Santos denotaria constrangimento diante da ideia de ensinar ao elenco praiano o que fazer dentro de campo” [39].

Simultaneamente, se tal regime autônomo – conduzido no Santos de maneira quase espontânea – já se caracterizava por um protagonismo dos próprios futebolistas na organização das equipes, uma outra experiência particularmente singular de autogestão futebolística se verificaria no Palmeiras, poucos meses após o golpe que destituiu Jango e estabeleceu o governo militar em 1964. Na ocasião, a coparticipação jogadora na organização técnica do plantel – em um processo que Florenzano denominaria “democracia palmeirense” – foi implementada com a chancela da diretoria alviverde, para responder a um momento de crise futebolística [40]: após a queda do técnico Silvio Pirilo em meio ao Campeonato Paulista, e diante dos receios a respeito de Mário Travaglini (técnico das categorias juvenis escalado para assumir a equipe), os jogadores Valdemar Carabina, Julio Botelho e Djalma Santos passaram a mediar um modelo singular de gestão coletiva e conjunta da equipe. Os três atletas formavam com Travaglini um núcleo de decisões (apelidado pela imprensa da época de “quarteto da esperança”), alinhado às posições do restante do elenco. Conforme afirmado pelo próprio Travaglini em entrevista recuperada por Florenzano,

[…] fomos empossados como “técnicos”, mas preferimos continuar a sermos companheiros. Assim, ali não se dão ordens. Sempre que nos reunimos, comunicamos aos companheiros do elenco quais as medidas que serão postas em prática e trocamos idéias a respeito” [41].

Djalma Santos, Dr. Rosseti, Valdemar Carabina, Julio Mazzei, Julinho Botelho e Mario Travaglini: componentes centrais da chamada “democracia palmeirense” [42].

Esta primeira experiência foi breve, sendo suspendida pelos dirigentes alviverdes após resultados adversos que custaram à equipe a conquista dos títulos do Campeonato Paulista e da Taça Brasil [43]. Dois anos depois, entretanto, Travaglini voltaria a ser nomeado técnico do plantel principal alviverde, e voltaria a adotar o sistema participativo experimentado em 1964, conquistando desta vez o título paulista. De acordo com Djalma Santos, em relato recuperado pelos jornalistas Helvio Borelli e Marcio Trevisan, “foi uma experiência interessante, acho que até inédita naquela época, e que deu certo, pois o Palmeiras foi campeão” [44]. Um experimento fugaz, e certamente pioneiro na história das práticas democráticas futebolísticas, e que apresentava peculiaridade pelo próprio contexto de sua realização: conforme assinalado por Florenzano, “deflagrada logo depois do golpe de Estado, desenvolvia-se na contracorrente do processo de militarização da sociedade brasileira e encontrava dentro dessa moldura histórica os limites impostos à construção da autonomia” [45].

Mais de uma década depois, um cenário significativamente distinto abarcaria novas experiências de autogestão democráticas das equipes, em meios aos debates instaurados na sociedade brasileira a respeito da própria redemocratização de seus sistemas políticos. Neste contexto, para além das definições a respeito dos planos de jogo, outras medidas passavam a ser discutidas internamente, e decididas em votações: primeiramente no Fluminense, que em 1981 tornava-se o palco de uma abertura democrática estimulada por Rafael de Almeida Magalhães, dirigente carioca do PMDB que assumia o cargo de vice-presidente da agremiação tricolor [46]. A prática do debate entre os jogadores como forma coletiva de decidir sobre novas contratações, prêmios e concentração passava a ser realizada enquanto experiência sintonizada ao processo político que o país vivia. Não à toa, a Revista Placar publicaria, em março daquele ano, uma reportagem que discutia as mudanças implementadas no clube, intitulada justamente como “A abertura das Laranjeiras” [47].

Um ano depois, experiência similar foi desenvolvida e ampliada no Corinthians, cujo “impulso favorecido pela conjuntura política da redemocratização” [48] se veria combinado a um conjunto de conquistas esportivas obtidas pela equipe no período, confirmando a assimilação posterior das máximas carregadas pelo movimento na memória oficial do próprio clube: não à toa, a “Democracia Corinthiana” consiste, hoje, na mais conhecida destas variadas experiências de autogestão democrática praticadas por futebolistas no Brasil. Ao mesmo tempo, era protagonizada por figuras que catalisavam os principais eixos da cultura contestatória daquele momento, a começar por Sócrates, que se consolidou rapidamente como “estandarte” [49] do movimento (em consonância com sua emblemática trajetória de engajamento político), mas também pelos vínculos de Wladimir com os sindicatos de futebolistas [50] e pela identificação de Walter Casagrande com o rock e o contexto de subculturas urbanas e juvenis vinculadas à música que proliferavam no contexto.

Além de tais figuras emblemáticas na composição do elenco, o técnico contratado em fins de 1981 para comandar a equipe corinthiana era, coincidentemente, o mesmo Mario Travaglini que participara nos anos 60 da pioneira experiência democrática realizada no Palmeiras. A identificação do técnico com a tomada coletiva de decisões – em oposição aos modelos mais autoritários e centralizadores adotados por outros técnicos – apresentava-se, naquele momento, como componente relevante e favorável às novas medidas adotadas pelo alvinegro paulistano: durante o período em que atuara à frente do Vasco da Gama (entre 1972 e 1976), por exemplo, Travaglini notabilizara-se por sua flexibilidade em relação às concentrações [51]; e paralelamente destacara-se, no mesmo período, como um dos treinadores favoráveis ao reconhecimento profissional dos futebolistas, colaborando na elaboração do projeto que efetivaria as contratações de jogadores através da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) [52].

Os pilares da experiência corinthiana, como bem se sabe, organizavam-se em torno do exercício coletivo do voto, instrumento de tomada de decisões que sucedia ao debate das pautas sobre as quais versaria. Suas conquistas corresponderam, substancialmente, àquelas que um ano antes já se viam debatidas pelos atletas do Fluminense (prêmios, novas contratações e concentração antes dos jogos) [53]: eram estas, afinal, as arenas sobre as quais seus integrantes percebiam a manutenção de expressões autoritárias, consolidadas pela cultura do regime que já acumulava, no país, praticamente duas décadas. De maneira distintiva, entretanto, a “Democracia Corinthiana” obteve significativa difusão em esferas alheias ao esporte: de acordo com a historiadora Lívia Gonçalves Magalhães, o apoio de figuras como a cantora Rita Lee, do publicitário Washington de Olivetto (que seria contratado pelo clube para oficializar o uso do termo em campanhas de marketing) e do jornalista Juca Kfouri, foram cruciais para que a experiência dos atletas encontrasse eco nos anseios de outros segmentos da sociedade brasileira, e de tal forma, também expandisse suas propostas, carregando “mensagens sociais e de cidadania” [54].

Sócrates, Rita Lee, Wladimir e Walter Casagrande, durante show da cantora realizado no Ginásio do Ibirapuera em 1982 [55].

A transferência de Sócrates para o futebol europeu em 1984, bem como a derrota de Adílson Monteiro Alves – então presidente do clube e entusiasta da experiência –, são considerados pela historiografia como fatores decisivos para o desmonte do movimento, que passaria a ser ostentado simbolicamente pela memória oficial do clube, a despeito da retomada dos velhos modelos autoritários e patriarcais de gestão clubística [56]. Sua inscrição em um rico momento de proliferação de experiências democráticas e participativas de gestão esportiva, entretanto, salienta os enredamentos possíveis entre futebol e política: José Paulo Florenzano chegar a nomear o período – que define entre 1978 e 1984 – como “República do Futebol”, tamanha a quantidade de experimentos similares ocorridos nas mais diversas equipes, “dentro e fora do circuito profissional” [57].

Hoje, estas experiências parecem distantes dos modelos implementados nos diversos ambientes clubísticos, particularmente atravessados (no Brasil e em outros cantos) pelo debate a respeito de sua transformação em Sociedades Anônimas [58]. Ainda que autores como Florenzano assinalem sua reverberação em experiências posteriores de autonomia – como o caso singular da Sambenedettese, equipe da série C1 italiana que experimentou em 2006 um modelo de gestão centrado em assembleias dos jogadores [59] – os relatos de sua ocorrência não apresentam, na atualidade, proposições concretas aos debates que procuram antagonizar com os modelos empresariais. As próprias contradições internas de tais experimentos parecem expressar-se nesta ausência: é necessário recordar, inclusive, que a própria inspiração para algumas experiências de coparticipação jogadora – como nos casos de Fluminense e Corinthians – também foram insufladas, parcialmente, por discursos de tonalidade empresarial. No tricolor carioca, as metas de Rafael de Almeida visavam a reordenação das relações mais participativas de trabalho para “elevar os índices de produtividade” [60], ao passo que, no alvinegro paulista, a administração de Adílson Monteiro Alves se propunha a conciliar o “alto rendimento atlético, a realização dos lucros financeiros e a construção da democracia interna” [61].

Tal componente não deslegitima nem retira qualquer importância destas experiências democráticas, mas escancara, afinal, a complexidade de suas contradições internas, comumente soterradas pelos discursos genéricos de memória oficial. Simultaneamente, nos recorda do árduo exercício que constitui a própria construção da democracia, uma vez que esta, enquanto um “perpétuo pôr em jogo” daquilo que se estabelece enquanto pretensamente uno [62], não pode ser concebida como fim, mas como um processo que abre fissuras, desvios, possibilidades. As incertezas do abismo democrático, decerto, parecem suficientemente assustadoras para quaisquer orientações que pleiteiem a gestão das instituições esportivas competitivas de alto rendimento. E é diante destas condições que nos colocamos, enfim, algumas perguntas: como construir autonomia em tais instituições, envoltas no amplo processo de mercantilização do esporte? E o que fazer com a herança dos exercícios democráticos experimentados no passado clubístico?

Não me proponho a resolver estas questões, mas pontuo que a evocação de práticas de autogestão futebolística, tais como as relatadas neste texto, pode se vincular a uma ampla variedade de objetivos situados no presente: desde lutas políticas que reivindicam uma continuidade em relação a estas experiências prévias – como no caso de coletivos de torcedores existentes na atualidade [63] –, até a própria exaltação de uma determinada “genética” inerente a um ou outro clube/grupo/torcida. Em ambos os casos, a incorporação de uma narrativa que se debruça sobre o passado apresenta-se como elemento para assegurar “a coesão e a solidariedade do grupo” [64], aspecto que o historiador Ulpiano Bezerra de Menezes aponta como fundamental na gestão de memórias coletivas, independentemente do tipo de agrupação em questão (um clube, uma torcida ou até mesmo um determinado segmento desta).

Nestes processos de identificação, entretanto, toda rigidez excessiva na relação com o passado – cristalizado enquanto bloco imutável – apresenta-se como armadilha totalizante e potencialmente paralisante. Por tal razão, insisto na abordagem das contradições internas, bem como das complexidades contextuais que permeiam os eventos relatados, inclusive em seus enredamentos enquanto expressões multifacetadas de um mesmo ambiente futebolístico. Ao confrontá-las, podemos mergulhar na experiência passada, atentando àquilo que Michel Foucault denominou como a emergência, isto é, a “entrada em cena das forças” [65] democráticas nos interstícios destas experiências. Sua investigação talvez nos possibilite, afinal, uma relação que potencialize a ação em nosso próprio tempo: pois nos convida, assim como aqueles atletas, a ocupar as brechas e criar possibilidades no contrapelo das expressões autoritárias que, com formas novas e próprias, permeiam os componentes de nosso futebol atual.

Micael Zaramella é historiador, pesquisador e torcedor de arquibancada do Palmeiras. Mestre em História Social (FFLCH-USP) e autor do livro “No gramado em que a luta o aguarda: antifascismo e a disputa pela democracia no Palmeiras (Ed. Autonomia Literária, 2022), se interessa pelas relações entre futebol e organização política. Coordena o Grupo de Estudos Palestrinos, vinculado ao Coletivo Ocupa Palestra – do qual faz parte.

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