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Por Mayara Dionizio

entre a força da ausência e da insuficiência: o surrealismo

A. Artaud, Le Théâtre de la cruauté, 1946

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Existem três textos que se entrecruzaram, para mim, fortuitamente nestes últimos dias e que, no entanto, constituem a fragmentação necessária para se falar de Revolução e literatura, surrealismo e acontecimento: “A comunidade literária”, “A comunidade e a escritura” e “O amanhã brincalhão”. Todos eles retomam as questões acerca do que foi levantado no último texto – “Contra-Ataque: o que a literatura ensina à política”. Falar sobre as relações entre arte e política exige sempre um cuidado que tanto retraça o caminho das instituições, e expõe como elas se servem das possibilidades abertas pelas produções subversivas para se reinstituírem (única saída possível ou assumir a sua falência), quanto repensa continuamente (e descontinuamente) a autonomia e ruptura das realizações subversivas. Que as instituições buscam assimilar as dissidências, nós sabemos. Para que isso seja efetivo, essas dissidências são reduzidas a signos que permitem a decifração e estruturação dentro de um campo do sentido. Que essas realizações não se deixam simplesmente reduzir para caberem nesse sentido imposto, o sabemos também. Não se trata, assim, de uma mera recusa às instituições, mas de uma dissimulação, de uma peça que as dissidências subversivas pregam nas instituições, pois sob as suas “tutelas” – que elas, as instituições, acreditam ser efetivas – essas dissidências subvertem o signo: o quebram, o estilhaçam, dançam sobre ele e, quando questionadas, o devolvem maltrapilho, mas ainda “inteiro”. Nessa dança às avessas, existiram essas experiências irredutíveis às explicações conceituais que ficaram conhecidas pelos nomes de surrealismo, Acéphale, teatro da crueldade e que atravessaram existências como as Antonin Artaud, Georges Bataille, entre outros – e por que não André Breton? (assunto para outro momento).

Aqui, temos então, duas experiências que as instituições não puderam assimilar senão as reduzindo e que, por outro lado, não se deixaram, e não se deixam, capturar em sua dissimulação através da institucionalização. É que, convenhamos, se Artaud e Bataille chegam até nós como que sussurros transportados pelo vento, pelo sopro da linguagem que é impossível precisar de onde vem ou onde começou – assim como os panfletos espalhados pelo céu de Paris, do alto dos edifícios, por aqueles que só subsistiam na luta; falo de Contre-Attaque– e apontam os rasgos na ordem pelos quais podemos escapar a ela, em algo a instituição falha. Neste contexto, também encontramos essas duas experiências, ainda que unidas no fragmentário, separadas em suas filiações ideológicas. É que tanto Bataille quanto Artaud buscaram meios de se desvincularem das instituições: no caso de Bataille, se associando ao grupo como única forme de viver a pluralidade que é uma exigência da experiência com o desconhecido; no caso de Artaud se dissociando de qualquer agrupamento que lhe retirasse sua solidão e sua impotência.

Em relação a este último, a Artaud, a sua Revolução estava muito mais associada à subversão de toda a estrutura metafísica que dividia, e divide, o mundo e o espírito em binarismos por meio da linguagem institucional do que com a experiência coletiva. É que Artaud, desde sua infância, se deu conta de um problema singular-universal que seria tema de grande parte das reflexões que surgiriam a partir da segunda metade do século XX: a experiência do pensamento em relação à linguagem. Artaud, desde muito cedo, percebeu a dificuldade que insiste no processo da criação literária. Por isso, ele se obstinou em tentar, durante toda a sua vida, chegar a alguma expressão que considerasse verdadeira e suficiente sobre o seu pensamento. A impotência de sua obra poética, que o expunha a falha de representar, por meio das palavras, o seu pensamento o levou a sua solidão. Escrever, para Artaud, se tornou sinônimo de sofrimento e de exposição de sua condição. Quando a sua obra se torna conhecida, principalmente a partir dos relatos sobre a impossibilidade que a linguagem poética lhe impunha quando tentava escrever poeticamente – o que posteriormente foi publicado sob o título Correspondance avec Jacques Rivière – Artaud descobre que o valor de sua obra estaria então na impotência que ela expressava. A relação artaudiana com o desconhecido dependia, então, de sua impossibilidade de expressão que se dava na tentativa de escrita. Decorrente desta publicação, principalmente a partir dos interesses do “líder” surrealista sobre a possibilidade da escrita automática, André Breton, Artaud é convidado a participar do movimento surrealista.

Já Bataille entende que a relação com outrem é essencial para a experiência com o desconhecido, para a experiência com o extremo do ser. A sua ligação com o surrealismo é traçada a partir desse horizonte. Tanto que Bataille não abandona essa busca de viver o extremo desconhecido do ser por meio de uma experiência de comunidade, mesmo quando se desvincula do surrealismo após a experiência do Contre-Attaque e sua desavença com Breton. Na verdade, é neste momento em que temos o ápice dessa exigência que hoje conhecemos por Acéphale. Bataille, assim como os surrealistas, buscaram na experiência coletiva justamente a não presença, ou ainda, a pluralidade da experiência que leva à irrupção da diferença. Mas, vamos por partes, o campo magnético pelo quais os surrealistas se encontram e desejam este encontro é precisamente esse contato com o desconhecido. Não se tratava, então, de buscar a presença de outrem a partir da amizade e da semelhança. O principio de toda comunidade acontecimental é precisamente o seu acontecimento que não se dá de modo voluntário. Se fosse isso, conheceríamos o movimento surrealista hoje como um grupo determinado, unitário, tal qual um grupo religioso, político ou de amigos. Não era o caso, todos ali sabiam que o que os unia era a insuficiência de cada um em se expor ao desconhecido, porque para se expor ao desconhecido é necessário se expor ao desconhecido que é outrem antes. Contudo, isso também não implica em uma exclusão da amizade. Na verdade, a amizade está desde sempre excluída da comunidade porque ela é um terceiro elemento, aquele que está entre os “membros” da comunidade e que fala quando se encontram no lugar deles mesmos. A comunidade, desta forma acontecimental, surge desde já subtraída a si mesma, fadada ao fim, pois está sempre dependendo de o acontecimento da exterioridade dar condições à experiência.

Então que chegamos ao paradoxo da continuidade: se a irrupção do acontecimento depende da descontinuidade, mesmo porque a exterioridade é a condição invisível presente entre a todos aqueles que se reuniam à espera do desconhecido, como falar em um grupo? Como pertencer a algo que existe por uma condição invisível, que não se impõe enquanto existente? “Somos artistas que acreditamos em….”! Não, o objeto ideológico de crença seria ele mesmo autorreferente de sua soberania e elo do grupo. “Eles são um grupo porque…”. Isso não quer dizer que os surrealistas em nada acreditavam. Sim, a suas crenças eram inclusivas da descrença. Dito de outro modo: acreditar no desconhecido impõe a necessidade de se acreditar que tem sempre algo que sobra, que não se fisga, e é neste momento que a comunidade se apaga como exigência da descontinuidade que lhe permitiu existir.

Falar do surrealismo – cada qual desejará bem compreendê-lo – é dele falar sem autoridade e de preferência a meia-voz, sem dirigir-se a ninguém, talvez, porém àquele que atravessou a fronteira e rompeu a solidão última. Não é dele falar como de um bem comum (comum a quem?) nem como de um bem próprio – não é o bem, e ele não pertence a ninguém. Suponho apenas aqueles que são perigosamente investidos do poder de representá-lo sabem que, mesmo se não há presente nem porvir, nem passado, o surrealismo pode a cada instante erguer-se diante deles e reclamar justiça, exigindo uma forma de realização segundo o sentido que lhes terão dado. Não há outro juízo final a não ser essa exigência em virtude da qual o invisível, alguma coisa que não existe, será medido pelas obras, atos, o silêncio, a resolução prática, ou seja, a vida e a morte, num jogo conjunto, de todos aqueles que terão pretendido dar-lhe uma evidência. Manifestação do não manifesto

Eis que Artaud se expõe ao desconhecido por meio da integridade de sua impotência, não podendo dividi-la (fragmentá-la como toda a ordem metafísica contra a qual luta). Assim, a experiência, para Artaud, é antes uma experiência com o vazio, com a brecha, com a fenda que corta a relação entre pensamento e fala, e escrita, sempre diferenciando-o.

Eis que Bataille só se expõe ao desconhecido por meio da insuficiência de si frente a outrem, necessitando sempre do fragmento para se chegar não ao todo, mas à experiência, à extremidade do ser. Assim, a experiência, para Bataille, é a experiência da insuficiência que precisa de outrem para se realizar, sempre no fragmento, sempre na pluralidade, na mutilação entre as partes.

Se expor à experiência do desconhecido é se abrir à força que há na falha, no corte ensanguentado pela faca da diferença que traça e não se deixa retraçar….

Continua…

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.