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Por Micael Zaramella

entre junho de 2013 e 2020: considerações sobre a potência política das arquibancadas

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Na data em que se completam dez anos das revoltas de junho de 2013, a ocasião revela-se propícia para refletirmos sobre as dimensões políticas das torcidas. Afinal, também se completam, nesse mesmo momento, três anos desde as manifestações encabeçadas por torcedores/as organizados/as, que saíram às ruas durante o governo Bolsonaro e a pandemia da Covid-19 em defesa dos valores democráticos. Eventos coincidentes pela efeméride de sua recordação – ainda que distanciados no tempo entre si – que evocam a dimensão coletiva das mobilizações políticas. O cruzamento explícito destas com o universo futebolístico, entretanto, se apresenta apenas no caso do segundo episódio em questão, ainda que convoque a memória dos eventos de 2013 e seus desdobramentos. Faremos de tal enredamento, portanto, o objeto central deste texto.

Nesta coluna, há de se recordar, já tivemos a oportunidade de contemplar alguns exemplos de potências políticas torcedoras: no segundo texto publicado, partimos de escritos do filósofo político Antonio Negri – referentes a sua participação no processo de formação das torcidas ultra na Itália –, e nos deparamos com o espaço das arquibancadas enquanto ambientes conformados por circuitos de identificação, agrupamento e politização. Naquele texto, procurei demonstrar exemplos da esfera torcedora em que os afetos clubísticos constituíam disparadores para a construção de vínculos, que além de se alimentarem das práticas políticas em curso no contexto, criavam, simultaneamente, novas possibilidades de articulação e ação.

Pensar estes cruzamentos no Brasil dos anos 2010 nos convoca, primeiramente, a revisitar a extensa trajetória dos modos de torcer em nosso próprio contexto. Sua genealogia nos revela uma multiplicidade de formas, em geral produzidas sob as condições de um tensionamento entre desígnios disciplinares – orquestrados pelos dirigentes esportivos – e as criatividades astuciosas de multidões que, pelo menos desde fins dos anos 1910, passaram a frequentar partidas com uma regularidade dissociada da prática físico-esportiva em si [1]. Historicamente, essa multiplicidade produziu variações, tanto em relação às expectativas projetadas pelos grupos dirigentes, quanto ao próprio conjunto das formas e comportamentos que as precederam. E à medida em que passou a fomentar desvios capazes de subverter as normatizações, o tensionamento que permeava continuamente a existência dessas formas, por si, já lhes imprimia uma condição política: ao confrontarem-se com os desígnios disciplinares arquitetados nos estádios e seus arredores (através de demarcações, setorizações e constantes tentativas de controle), seus modos de existir já passaram a incorporar uma boa dose de teimosa e subversiva insistência.

Em um artigo recentemente publicado [2], procurei demonstrar certa potência indisciplinar investida nas primeiras formas de torcer, produzidas pela popularização do futebol nas primeiras décadas do século XX. Assinalo que, em alguma medida, a invasão dos campos pelas multidões vinculadas aos ascendentes clubes de conotação popular interferiu diretamente nos rumos da prática esportiva no país, reordenando as relações nas cidades e produzindo articulações que culminariam na construção de estádios com capacidades massivas. Progressivamente, tensionamentos similares seriam abrigados pela setorização dos diferentes grupos sociais nestas arenas, inventando festivas e ruidosas formas de vivenciar coletivamente as partidas, nas brechas de suas estruturas de concreto [3].

Nas décadas seguintes, a cronologia de sucedâneas formas torcedoras – iniciada nos anos 40 desdobrando-se em charangas, torcidas uniformizadas e torcidas jovens, entre outros fenômenos [4] – culminaria, durante o contexto do regime militar, no surgimento das chamadas torcidas organizadas. As narrativas sobre suas origens revelam interlocuções e atravessamentos contínuos com outros tipos de agrupação torcedora vigentes na época, incorporando aspectos na conformação de um novo modelo, cuja alcunha já sugeria certa premissa de ordenação: a torcida organizada pressuporia, evidentemente, uma certa noção de ordem, imediatamente expressada, em sua formação, na composição de hierarquias e direções, diferentemente de outros modelos de coletividade torcedora.

Autores dedicados a pesquisar o fenômeno das organizadas, como o sociólogo Mauricio Murad, ressaltam este aspecto enquanto expressão de uma sintonia entre o momento histórico de seu surgimento e o contexto de uma cultura igualmente hierarquizada (com tonalidades militares) que se expandia pelo Brasil através do regime político então instituído [5]. No texto anterior desta coluna, referenciei as colocações deste autor enquanto contribuições para pensar as interações entre a cultura autoritária do regime militar brasileiro e o universo futebolístico, ainda que nosso foco se dirigisse, naquela ocasião, justamente às expressões dissidentes que proliferavam experiências de autonomia, autogestão e democracia nos clubes. No âmbito torcedor, por sua vez, as expressões de maior endurecimento hierarquizado, autoritário e disciplinar – que não descartamos enquanto componentes da formação de diversas torcidas organizadas – pareciam conviver, igualmente, com a criação de ambientes singulares de formação e organização política.

A despeito de seus componentes hierarquizados, portanto, as torcidas organizadas também se apresentavam no contexto de sua formação enquanto um singular exercício de composição autônoma. Conforme os apontamentos do antropólogo Luiz Henrique Toledo, constituíam “instituições mais alternativas de participação nas franjas do futebol profissional” [6], que mantinham o referente clubístico como eixo de sua organização, mas articulavam-se de forma independente em relação à estrutura administrativa das agremiações (diferentemente de suas antecessoras, as torcidas uniformizadas mantidas com apoio e participação direta dos clubes em si). Para o autor, o surgimento destas organizações torcedoras caracterizadas pela autonomia não poderia ser dissociada de sua “conjuntura de efervescência política” [7], simultaneamente caracterizada pelo cerceamento de direitos políticos e da cidadania. Configuravam, portanto, formas de organização possíveis em uma sociedade autoritária que suprimia a própria existência de organizações, ocupando a brecha das arquibancadas, único espaço de aglomeração massiva possível. Sua forma de atuação, por conseguinte, passaria a carregar a reivindicação como componente determinante, direcionada ao plantel de atletas, bem como às estruturas administrativas dos clubes, consolidando as torcidas enquanto órgãos autônomos de cobrança e pressão.

Este perfil, que Toledo identifica inaugurado em 1969 com o surgimento da organizada corintiana Gaviões da Fiel [8], caracteriza até os dias atuais a atuação de tais agrupações torcedoras. Enquanto entidades autônomas que atrelam suas práticas a posturas de reivindicação, passaram a implementar (durante contextos de insatisfação) a realização de “protestos” durante os jogos, bem como em frente à sede dos clubes, centros de treinamento e outros locais simbólicos que abrigassem as estruturas administrativas das agremiações às quais se identificavam. Simultaneamente, seu potencial mobilizatório e sua característica contestatória também levou ao desenvolvimento de atuações politizadas desde as entidades, ainda que oficialmente estas se configurassem e apresentassem enquanto “apolíticas” [9]. É o que afirma, por exemplo, o ex-presidente da Mancha Verde (Palmeiras), André Guerra, ao referenciar a história das organizadas no Brasil em depoimento de 2018: “quando surgiram, surgiram na ditadura, e lutaram pela democracia também, junto com alguns jogadores que, naquela época, representavam os clubes e gostavam do esporte” [10].

A fala de Guerra, além de aludir a atuação torcedora correlata às práticas politizadas de atletas – expressadas durante o regime militar através de formas individuais e coletivas [11] –, também identifica seu engajamento nas lutas pela redemocratização, particularmente no contexto das campanhas das “Diretas Já”. Tal participação já foi relatada também por Cosmo Damião, um dos fundadores da Torcida Jovem do Santos, que pontua que “a batucada da Gaviões da Fiel e da Torcida Jovem animava os comícios na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita”, além de destacar, na ocasião dos comícios pelas Diretas Já, as presenças da “Leões da Fabulosa [Portuguesa], a TUP [Palmeiras], a Mancha [Palmeiras] e a Independente [São Paulo]. Todas as torcidas que existiam na época compareceram” [12].

Episódios como estes certamente ressoam, nos dias atuais, em novas experiências de organização e ação política torcedora, que seguem fazendo do futebol um campo aberto para a invenção de práticas de autonomia. O surgimento de coletivos políticos torcedores durante a década de 2010, bem como o protagonismo de torcedores organizados em ações políticas recentes – como as manifestações em defesa da democracia realizadas em 2020 e a dissolução dos bloqueios realizados em estradas por agrupações golpistas após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 – são exemplos da continuidade destas expressões reivindicatórias operadas desde as arquibancadas, investidas de uma caracterização politizada.

Em junho de 2013, quando uma revolta multiforme e multitudinária tomou de assalto o espaço público brasileiro – deflagrada pela realização de manifestações contra o aumento das tarifas de transporte público, e posteriormente derivando em uma variedade de outras pautas [13] –, as torcidas organizadas não estiveram explicitamente presentes nas ruas, embora um sem número de integrantes e associados destas entidades participasse dos atos, de diferentes maneiras. Sua presença implícita, entretanto, foi destacada pelo historiador Flavio de Campos, em artigo no qual o pesquisador ressalta uma mimetização de expressões das arquibancadas pelos manifestantes. Conforme assinalado pelo autor,

“Pula sai do chão contra o aumento do buzão” (ou contra a corrupção) é uma paródia do “Pula sai do chão faz ferver o caldeirão”. “O povo acordou” tem também suas matrizes futebolísticas: “O campeão voltou”. “Sou brasileiro, com muito orgulho, com meu amor…” é o decalque do principal (talvez o único) canto entoado (e enjoativo) pela torcida brasileira em partidas da Seleção. Se nos antigos estádios ocorriam disputas entre modalidades de torcer por aqueles que ocupava gerais, arquibancadas, numeradas, tribunas de honra e outros espaços diferenciados, nas ruas se pôde observar a expressão de diversos setores sociais e lutas ideológicas bastante explícitas [14].

A incorporação de gestualidades e vocalidades da cultura torcedora, exemplificadas por Campos em torno das manifestações de 2013, certamente não se inaugurou naquele contexto, e indica um entrecruzamento anterior – e profundo – entre as disputas experimentadas dentro e fora dos estádios. Revela-se particularmente interessante, neste sentido, o movimento de mão dupla estabelecido entre as esferas torcedoras e politizadas, dado que, assim como as condições da vida política no período militar influenciaram e os modos de estruturação e ação das torcidas organizadas, a cultura estética destas parece ter alimentado diretamente a concepção de gestualidades e vocalidades nas mobilizações políticas multitudinárias.

A respeito das multidões que ocuparam as ruas em 2013, há de se pontuar que sua emergência não derivou de mero espontaneísmo imediatista, mas de uma tradição de lutas e organizações que já faziam do espaço público sua arena de disputa, ainda que em torno de outras pautas políticas. Os enredamentos desta cultura política com o campo futebolístico vinham se estreitando, no contexto, em torno da iminente realização de megaeventos esportivos como a Copa das Confederações (2013) e a Copa do Mundo da FIFA (2014): desde 2010, por exemplo, a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa do Mundo (Ancop) vinha denunciando e confrontando práticas de exclusão e elitização que, atravessadas por arbitrariedades e irregularidades, faziam dos preparativos para a Copa do Mundo muito mais do que a mera antessala de um evento esportivo de entretenimento [15]. Durante as semanas de junho em que as manifestações ganharam corpo, a pauta do transporte público convivia com as lutas voltadas aos megaeventos, particularmente aquecidas com a realização da Copa das Confederações naquele mesmo momento no Brasil, durante a qual também ocorreram manifestações políticas [16]. Atos contra a realização da Copa do Mundo, por sua vez, se estenderam até a realização do evento no ano seguinte.

Manifestantes em 2014 carregam faixa com os dizeres “Sem direitos, sem Copa” [17]

Nesta conjuntura, a aproximação entre movimentos sociais diversos enredou lutas organizadas – em torno da questão urbana, patrimonial, da luta por moradia, da questão indígena, do racismo e da violência policial, entre outras – a uma pauta originalmente referente ao universo futebolístico (a Copa do Mundo). A construção dos chamados estádios “padrão FIFA”, por sua vez, consolidou a introdução no país do modelo de arenas multiuso, cuja arquitetura pressupunha relações torcedoras fundamentalmente baseadas na experiência consumidora de espetáculos de entretenimento [18]. A introdução deste modelo e sua difusão entre diversas capitais brasileiras e clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro (na forma de estádios públicos e privados) culminou em um agressivo processo de elitização do público dos estádios, imediatamente decorrente da implementação de valores elevados de ingresso, sistemas informatizados de compra e investimento intenso em programas de fidelização de sócios torcedores.

Concomitante a esta variedade de transformações significativas operadas no cenário futebolístico brasileiro, a cultura política inaugurada por novas formas de organização e militância política durante a realização das manifestações de 2013 também alimentou a proliferação de diversos coletivos políticos de torcedores/as, progressivamente identificados com a pauta autoproclamada “antifascista”. Ainda que o surgimento de alguns destes coletivos remeta a um período anterior – caso da torcida Ultras Resistência Coral, do Ferroviário Atlético Clube, criada em Fortaleza no ano de 2004 e considerada a primeira torcida antifascista do país [19] – a proliferação do fenômeno se localiza atrelada ao contexto das manifestações de 2013 e seus desdobramentos.

Em abril daquele ano, uma articulação conjunta de torcedores/as de diversos clubes levou ao surgimento concomitante de coletivos “livres” e “queer”, identificados inicialmente com as pautas da população LGBTQIA+ e organizados, a princípio, enquanto páginas em redes sociais. A iniciativa pioneira, criada pela torcedora Nathália Duarte, do Atlético Mineiro, foi a “Galo Queer” [20], rapidamente seguida do surgimento de coletivos similares formados por torcedores/as do Cruzeiro, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Náutico, Grêmio, Internacional, Vitória, Bahia e Flamengo [21]. Surgidos no ambiente virtual, alguns destes coletivos desenvolveram, nos anos seguintes, uma continuidade de ações que transcendeu o espaço das redes, ao passo que outros mantiveram-se exclusivamente enquanto páginas, e alguns encerraram suas atividades desativando as mesmas.

Tal relação estreita com o ambiente virtual, de acordo com depoimentos de seus componentes, caracterizou centralmente suas atividades por razões associadas ao anonimato e segurança dos/as integrantes dos coletivos [22], ainda que o pesquisador Maurício Rodrigues Pinto, em trabalho sobre torcidas e coletivos torcedores dedicados à pauta da homofobia, também relacione este aspecto diretamente ao contexto histórico de formação de tais coletivos [23]. O uso das ferramentas digitais para a convocação de atos e protestos, bem como para a cobertura autônoma em tempo real dos mesmos, fazia de tais tecnologias não apenas “ferramentas de descrição, mas sim de construção e reconstrução da realidade” [24]. De forma equivalente, tais páginas-coletivos também faziam das redes sociais espaços virtuais de atuação política – com suas evidentes particularidades e limitações.

A partir do ano de 2014, o surgimento de páginas como Palmeiras Antifascista, Corinthians Antifascista (posteriormente desativada) e SPFC Antifascista (posteriormente renomeada) [25] transcendeu abertamente a atuação no ambiente virtual, ainda que não a abandonasse nem a relegasse a uma condição secundária. O coletivo Palmeiras Antifascista, por exemplo, embora tenha se caracterizado por uma atuação forte no ambiente virtual ao longo de sua trajetória, formou-se após um episódio de enfrentamento direto ocorrido nas arquibancadas do estádio do Pacaembu, e pouco após seu surgimento procurou fazer-se presente nos estádios e em manifestações de rua com faixas e bandeiras [26]. Entre torcedores corintianos, por sua vez, o coletivo Coringão Antifa veio a ocupar espaços de luta torcedora de forma similar, destacando-se recentemente por seu protagonismo na organização de protestos no clube contra a contratação do técnico Cuca, condenado em 1987 por caso de estupro [27]. Já os antifascistas são-paulinos passaram a se organizar especialmente em braços vinculados a torcidas organizadas do clube, como o “Bonde do Che” (vinculado à Torcida Tricolor Independente) e a “Frente Guevarista” (vinculada à Dragões da Real), embora também se verifique a formação de outros coletivos, como o Bloco Tricolor Antifa [28].

Nos anos seguintes – com especial ênfase nos anos de 2017 e 2018 – coletivos antifascistas similares proliferaram nas arquibancadas de outros clubes brasileiros, apresentando a mesma composição balanceada de suas ações entre os ambientes virtuais e fora deles, em diferentes gradações [29]. Para além das numerosas agrupações primordialmente organizadas no meio digital, entretanto, há de destacar o surgimento de grupos notavelmente estruturados nas arquibancadas, como a torcida organizada antifascista Resistência Alvinegra (Atlético Mineiro), a Tribuna 77 (Grêmio) e a Guerreiros do Almirante (Vasco da Gama), transpondo para o ambiente dos estádios posturas políticas entrelaçadas à expressão torcedora [30].

As motivações para o surgimento desta diversidade de coletivos, certamente, encontram-se em um arco amplo de atravessamentos do ambiente futebolístico pelas questões sociopolíticas vivenciadas em outras esferas da sociedade brasileira no momento. Um dos exemplos mais evidentes – e que se expressa também nas ações de torcidas organizadas durante o mesmo período – é a já mencionada elitização dos espaços torcedores, deflagrada pela arenização dos estádios e pelos modelos de gestão neoliberal responsáveis pelo aumento do preço dos ingressos. Neste contexto, a máxima vinculada a uma postura “Contra o futebol moderno” – própria das agrupações ultras europeias – tornou-se o principal eixo de uma discursividade de oposição ao “futebol negócio” [31], incorporada pelos coletivos antifascistas nos termos de uma disputa classista evidenciada em ações de agitação contra as práticas excludentes no ambiente futebolístico.

Nos termos próprios da política institucional das agremiações, por sua vez, surgiram uma série de grupos dedicados à luta pela democratização das estruturas clubísticas e ambientes futebolísticos, pautando a redução dos valores de ingresso, mas também a ampliação da participação democrática de torcedores/as na vida política do clube. São exemplos a pioneira iniciativa do Povo do Clube (Internacional), bem como a Resistência Azul Popular (Cruzeiro), e grupos políticos como Flamengo da Gente (Flamengo) e o coletivo Ocupa Palestra (Palmeiras), entre outros [32].

Simultaneamente, a polarização expressada no campo político institucional – agravado com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e com a realização de manifestações de rua convocadas por organizações de direita – estimulou o surgimento de coletivos vinculados às pautas próprias deste debate, e presentes em suas arenas: nas manifestações convocadas por organizações sociais e partidos políticos do chamado “campo progressista”, passou a figurar cada vez mais a presença de coletivos como Democracia Corinthiana (Corinthians), Porcomunas (Palmeiras), Esquerda Vascaína (Vasco da Gama), Tricolores de Esquerda (Fluminense), entre muitos outros. A ascensão de organizações e discursividades vinculadas ao campo das direitas – estrategicamente reunidas em torno da ascensão de Bolsonaro ao poder, deflagrada nas eleições de 2018 –, por sua vez, também motivou a formação de um conjunto de coletivos e organizações auto identificadas com a pauta antifascista, adotando táticas de enfrentamento direto contra a militância de extrema-direita e difundindo posicionamentos contundentes sobre racismo, sexismo, LGBTfobia e outras formas de discriminação no ambiente futebolístico.

A despeito de certa irregularidade na manutenção de suas atividades, o acúmulo de experiência política dos diferentes coletivos, ao longo de suas trajetórias, resultou em um inventário significativo de ações, muitas vezes articuladas a outras organizações políticas, como movimentos de moradia, partidos, coletivos e demais entidades identificadas com o campo das esquerdas. No âmbito de sua articulação, por sua vez, iniciativas como a Frente Nacional Futebol Popular (FNFP), as Torcidas Antifascistas Unidas (TAU) e a rede de torcidas antifascistas latinoamericanas La Voz del Sur [33] revelam um esforço correspondente ao da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), dedicada a mobilizar de forma conjunta as entidades torcedoras em situações que enredam o ambiente futebolístico aos rumos políticos discutidos em outras instâncias sociais.

A proliferação de coletivos antifascistas no contexto do pleito presidencial de 2018, por sua vez, também foi acompanhada de um acirramento de outras aproximações entre o domínio da política e as esferas torcedoras, verificadas, por exemplo, na realização de ações e campanhas de oposição à candidatura bolsonarista protagonizadas por torcidas organizadas e movimentos de torcedores/as. Notas desaconselhando o voto dos associados em Bolsonaro, como as publicadas pela torcida Os Imbatíveis (Vitória), pela Torcida Jovem do Santos e a Torcida Jovem do Sport [34], fizeram coro ao texto “Gavião não vota em Bolsonaro”, assinado por Rodrigo Gonzalez Tapia (então presidente da organizada corintiana Gaviões da Fiel) [35] e ao manifesto “Palmeirenses contra o fascismo”, assinado por coletivos como Palmeiras Antifascista, Porcomunas e Palmeiras Livre, e personalidades com o ator Marco Ricca, os músicos João Gordo, Simoninha e Maria Gadú, o neurocientista Miguel Nicolelis e conselheiros da agremiação [36].

Após a eleição, os atravessamentos dos ambientes torcedores pelo debate político acirraram-se particularmente à medida em que se verificou uma ascensão de discursividades antidemocráticas, expressadas por Bolsonaro, por representantes de seu governo, e por uma militância de extrema direita disposta a ocupar regularmente as ruas com símbolos tradicionais da sua própria tradição política [37]. Se por um lado a maior parte das estruturas diretivas das organizadas se manteve atentas à premissa de isenção oficial – procurando evitar dissensos internos motivados por discordâncias políticas –, por outro, o período abrigou o surgimento e fortalecimento de agrupações politizadas, protagonizadas por torcedores/as organizados/as que atrelavam seus afetos e identificações clubísticas a sólidos posicionamentos de defesa de valores democráticos.

Entre os meses de abril e maio de 2020 – momento em que o Brasil vivia o duro início da pandemia da Covid-19 –, a realização contínua de atos organizados pela militância bolsonarista ocupou as ruas vocalizando posições abertamente antidemocráticas, politicamente entrelaçadas a declarações carregadas de negacionismo científico perante a pandemia em curso. Diante da ascensão destas mobilizações de extrema direita, ambientada pelo isolamento social praticado centralmente por setores da classe média e pela indecisão das forças de esquerda sobre como agir politicamente no contexto, agrupações torcedoras saíram às ruas com o objetivo de disputá-las, visando sufocar a realização dos atos de teor antidemocrático. No dia 3 de maio, uma manifestação articulada por integrantes da Coluna Vermelha (coletivo antifascista de torcedores do Internacional) e militantes de outras organizações se contrapôs à manifestação bolsonarista realizada em frente ao Comando Militar Sul, que pedia intervenção militar e fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) [38]. No dia 9 de maio, por sua vez, torcedores corintianos – em sua maioria integrantes de organizadas – se reuniram na Av. Paulista, em São Paulo, portando faixas em defesa da democracia e intimidando manifestantes bolsonaristas que vinham se agrupando regularmente no local [39].

Nos fins de semana seguintes, novas mobilizações ganharam força em diferentes capitais do país, protagonizadas por integrantes de coletivos torcedores antifascistas e torcidas organizadas. Em Belo Horizonte, por exemplo, integrantes do coletivo Cruzeiro Antifa cerraram fileiras com integrantes da torcida organizada antifascista Resistência Alvinegra, do Atlético Mineiro [40]. Em São Paulo, por sua vez, atos cada vez mais numerosos contaram com a participação de integrantes de torcidas organizadas de Corinthians e Palmeiras: os alvinegros, maciçamente mobilizados na criação do movimento Somos Democracia, tendo como um de seus coordenadores principais Danilo Pássaro, integrante dos Gaviões da Fiel; e os alviverdes, articulados na criação do Movimento Palestra Sinistro, assim nomeado em referência dupla a seu posicionamento político (“sinistra” significa “esquerda” em italiano) e à disposição ao enfrentamento direto contra as movimentações de extrema direita.

Torcedores corintianos em maio de 2020 [41]

O Palestra Sinistro saiu às ruas de forma unificada pela primeira vez em 14 de junho de 2020, passando a integrar, a partir de então, a composição de um massivo bloco de torcedores/as palmeirenses presentes em manifestações contrárias ao governo Bolsonaro [42]. O Somos Democracia, por sua vez, se estruturou entre o final de maio e o começo de junho daquele ano, apresentando-se publicamente enquanto uma articulação de integrantes de diversas torcidas organizadas, atuando conjuntamente à Anatorg na construção de atos em diferentes cidades [43]. Constituído a partir de mobilizações torcedoras, o movimento procurou articular a organização de manifestações cada vez mais amplas, em diálogo com outras organizações e movimentos sociais.

Torcedores palmeirenses do Movimento Palestra Sinistro, em 14 de junho de 2020 [44].

Em uma cronologia ampliada das manifestações de oposição ao governo Bolsonaro, os atos de maio e junho de 2020 deram início a um amplo ciclo de mobilizações organizadas durante o contexto pandêmico, no qual o protagonismo de agrupações torcedoras enquanto agentes políticos ativos na disputa do espaço público se manteve proeminente. Entre os anos de 2021 e 2022, blocos de torcedores carregando faixas, bandeiras, sinalizadores e rojões, entoando cânticos que reativavam o enredamento estético das culturas de arquibancada com o ambiente das manifestações políticas, fizeram-se presente nas ruas ao mesmo tempo em que seguiam desenvolvendo atividades voltadas a seu próprio campo de militância.

Após a realização do pleito presidencial de 2022, por sua vez, ocorreram novas ações protagonizadas por torcedores organizados, quando militantes de extrema direita passaram a realizar bloqueios em rodovias protestando contra a derrota de Bolsonaro perante Lula nas eleições: neste cenário, diversas caravanas de torcidas organizadas – em deslocamento pelas rodovias para acompanhar seus clubes em partidas disputadas como visitante – passaram a desfazer os bloqueios, confrontando diretamente tais manifestações de caráter golpista. A prática, inaugurada por torcedores da Galoucura (organizada do Atlético Mineiro) que passaram a se identificar como a “tropa dos fura bloqueio” [45], se espalhou energicamente entre as caravanas de torcidas diversas, além de estimular a realização de ações similares conduzidas por outras organizações políticas.

Conclusivamente, esta larga cronologia de enredamentos entre culturas torcedoras e práticas políticas, aqui esboçada na forma de exemplos simbólicos, não visa de forma alguma esgotar a apresentação de suas expressões multiformes. Inúmeros exemplos de grupos, coletivos e torcidas, repletos de particularidades em suas próprias trajetórias, se encontram articulados a nível nacional e internacional, produzindo continuamente novos elementos para a composição de uma cultura futebolística politizada. No contexto brasileiro, certamente verificamos a articulação de muitas de suas atuais táticas, vocabulários e alianças a partir do rasgo produzido pelas revoltas de junho de 2013, mobilizando aspectos das culturas políticas elaboradas a partir daquele momento. Convém salientar, entretanto, que tais enredamentos não derivam exclusivamente daquele contexto: no princípio do texto, procuramos recapitular importantes elementos que, além de evidenciarem o longo enredamento entre domínios politizados e torcedores, reivindicam a própria natureza política dos fenômenos de torcidas, com especial ênfase na forma dominante das torcidas organizadas.

Conceber tais existências enquanto políticas talvez seja o gesto fundamental que nos afaste, definitivamente, de uma empobrecida expectativa que vislumbra nos/as torcedores/as apenas instrumentos úteis para o manuseio político: afinal, tal expectativa deriva fundamentalmente de uma perspectiva que os secundariza enquanto agentes sociais. Este menosprezo dirigido à relevância das pulsões que a arquibancada produz – inclusive na própria partida de futebol – projeta uma invisibilização sobre seu potencial protagonismo: busca compartimentá-la enquanto um apêndice de comportamentos, já previamente esperados, que ambientam de maneira coadjuvante as contingências do jogo. O relato das trajetórias politizadas de agrupações torcedoras realizado neste texto, entretanto, visa reafirmar a potência indisciplinar que o torcer carrega na criação de seus circuitos de identificação e agrupamento: práticas que habitam a brecha da sublevação, e que nos possibilitam pensar um pouco menos a própria torcida organizada enquanto “ordenação”, e mais enquanto “organismo”. Um corpo vivo, múltiplo e pulsante, e que carrega em si, como tal, a possibilidade de investir politicamente sua força coletiva, desde sua inata associação à multiplicidade de descapturas que, elaboradas desde as arquibancadas, astuciosamente insistem em permanecer vivas frente ao aparato disciplinador dos poderes que se mobilizam para dissolvê-las.

Os efeitos destas coletividades pulsantes, articuladas na forma aberta (porém interconectada) de um organismo, se explicitam na relevância do espetáculo visual e sonoro produzido nas arquibancadas: nada daquilo se produz na espontaneidade que certas leituras românticas – certamente inspiradas pela pouca atenção debruçada à complexidade dos fenômenos torcedores – podem projetar sobre o ambiente futebolístico. A ausência das organizadas e seus materiais em ocasiões de punição, suspensão ou deliberado protesto evidenciam-no. E os efeitos deste espetáculo na construção de pulsões coletivas, que eventualmente influenciam os rumos da própria partida disputada em campo, também singularizam a relevância da participação torcedora no evento futebolístico como um todo [46].

Por isso, gostaria de concluir este texto insistindo na singularidade das existências torcedoras. Não no sentido de uma diferenciação hierarquizante do futebol em relação a outras culturas esportivas (ao redor das quais também criam-se circuitos de afeto, vínculo, identificação), nem tampouco das torcidas em relação a outros agentes políticos. Insisto na afirmação de sua relevância diante de uma secundarização que minimiza para soterrar, pois é certo que há algo de aterrorizante (para as tecnologias do poder e do controle) na existência astuciosamente inquieta e indisciplinar daqueles/as que se localizam espacialmente às margens do campo onde se disputa a bola.

Escalando alambrados, projetando com a voz a presença onde o corpo não pode entrar, as torcidas penetram no jogo pelas brechas de suas fronteiras em relação à arquibancada. De tal maneira, reivindicam uma existência que resguarda o vínculo com suas equipes de preferência enquanto ponto de partida para possibilidades outras de conceber o jogo: constituem coletividades que transcendem o papel da assistência contemplativa – ambicionada atualmente pelos moldes do modelo consumidor –, para incorporar-se de maneira singular e verdadeiramente ingovernável às disputas que o jogo abriga, dentro e fora das molduras do gramado e dos 90 minutos de sua duração. De modo correspondente, parecem invadir sorrateiramente os campos instituídos da política. Não para reivindicar centralidade, ou messianicamente indicar qualquer caminho, mas para complexificar e estimular tal como se torce: incentivando, gritando, criticando, e eventualmente, desordenando o que se tem como estabelecido.

Micael Zaramella é historiador, pesquisador e torcedor de arquibancada do Palmeiras. Mestre em História Social (FFLCH-USP) e autor do livro “No gramado em que a luta o aguarda: antifascismo e a disputa pela democracia no Palmeiras (Ed. Autonomia Literária, 2022), se interessa pelas relações entre futebol e organização política. Coordena o Grupo de Estudos Palestrinos, vinculado ao Coletivo Ocupa Palestra – do qual faz parte.

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