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Por Mayara Dionizio

linguagem viral extraterrestre e heroína subversiva

O vírus também é uma adicção, a adicção também é um vírus. Para quem conhece a obra de Willian Burroughs sabe que essa afirmação é perfeitamente possível. Do mesmo modo, a escrita é um vírus, logo, uma adicção. Vinda do espaço, inoculada em nós de forma parasitária, a escrita seria tanto aquilo que nos permite agir contrariamente ao sistema quanto aquilo pelo qual o sistema nos controla. Em The Electronic Revolution (1970), Burroughs propõe um manual de guerrilha subversiva de escrita contra o sistema. Acusando a produção literária, da segunda metade do século XX, de estar atrasada em relação às artes plásticas, o escritor não só busca se aliar a artistas visuais como Brion Gysin, mas também a cineastas com David Cronenberg – que inclusive dirige a adaptação da obra Naked Lunch (1959) para o cinema –, buscando criar sentido subversivos àqueles difundidos naquele período da História. Estou me referindo, aqui, ao pós guerra, momento em que o avanço tecnológico começa a dar passos largos em relação aos métodos eletrônicos de comunicação e difusão cultural.

No sentido em que Paul B. Preciado se refere, enquanto herdeiro de Michel Foucault e Jacques Derrida, de que a tecnologia não equivale somente ao digital; também Burroughs o fará se referindo à tecnologia como aprimoramento, ou avanço, de técnicas, sejam elas digitais ou não. Entretanto, ao passo que a linguagem se configura para Preciado como mais uma tecnologia, para Burroughs, ela é um vírus-tecnológico-aditivo. Não se trata, então, de uma dissimetria de inscrição, mas de concepções distintas acerca da origem da própria linguagem.

Para Foucault, uma técnica é um dispositivo complexo de poder e de saber que integra os instrumentos e os textos, os discursos e os regimes do corpo, as leis e as regras para a maximização da vida, os prazeres do corpo e a regulação dos enunciados de verdade [1]

Enquanto Burroughs reconhece o caráter viral da escrita como uma tecnologia viciante e exterior ao nosso planeta, Preciado reconhece o caráter disseminativo da escrita justamente por ela ter primeiro criado a palavra e, a esse surgimento, não há rastro possível que nos leve a sua origem. Voltando à obra de Bourroughs, a prova cabal de que estaríamos infectados, e que é uma das bases de sua argumentação genealógica da escrita, é que quando fechamos os olhos, em silêncio, nossos pensamentos não param de se escrever mentalmente. Ou seja, não paramos de pensar. Mesmo em sonhos, quando a potência imagética cria incessantemente, não paramos de pensar em palavras, em linguagem. Estamos inoculados, esse vírus sem organismo, nem bactéria, espectral, não cessa de nos fazer falar e nos transforma em adictos em escrita e, por isso mesmo, maquinas de escrever ambulantes. Não à toa, em Naked Lunch, o personagem do escritor junkie é viciado em inseticidas e as máquinas de escrever ganham corpos de insetos. Mesmo quando se narra uma cena em que os personagens se movimentam, falam, comem, transam, fumam, etc. o que se escuta é o barulho das teclas da máquina que não cessa de escrever. Cada dedo que toca na tecla aprofunda o maquinário em carne, em pele que, embaixo dela, está plena de fluxos sanguíneos e corporais. Somos Soft Machines – The Soft Machine (1961). Maquinas moles, macias, feitas de carne que inoculadas por esse vírus e só conseguimos pagá-lo com a dependência.

O sistema nos controla por meio de nossa adicção e, não bastasse estarmos todos infectados, eles desenvolvem outras tecnologias que, por sermos viciados, aceitamos: dinheiro, farmacopornografia, poder, consumo, dispositivos digitais, etc. Assim, nos subjetivamos docilmente, como Burroughs com o pique de uma agulha em seus braços já castigados, como os hematomas fazem ver.

Nosso sistema de sinais é tão propenso à abstração que as palavras não têm mais um sentido preciso. É aí que o controle e a manipulação política aparecem. Um exemplo é o uso das palavras comunismo, fascismo, etc., que são aplicadas indiscriminadamente a qualquer fenômeno. A situações muito específicas, como a Alemanha Nazista, o apartheid na África do Sul ou ditaduras militares na América Latina, são todas igualmente rotuladas como fascismo. Esse é um típico controle sobre as palavras que é frequentemente exercido pela imprensa para criar opiniões e produzir efeitos [2]

Seria necessário, então, que se criassem palavra novas, subvertendo o sentido dessas que só fazem reproduzir um sistema de igualdade de sentido, para se referir a cada fenômeno. Isso, claro, envolveria muitos riscos. Sabemos que a tentativa de produzir efeitos pelo sentido das palavras não é só utilizada pelo sistema em seu próprio favor, mas também por nós quando queremos estabelecer um efeito de indignação e revolta por comparação. Nos é necessário voltar a imaginar e a se espantar como se fosse o primeiro olhar, sim, essa lógica barata dita em todos os cursos de filosofia quando tentam engrandecer a filosofia socrática ou reduzir o mundo de curiosidade de uma criança a essa sentença.

Que haja críticas a Bourroughs, contudo, o que ele nos diz, ao que ele nos convoca, não se distingue em absoluto daquilo que a sobriedade filosófica e psicanalítica insiste em reconhecer e legitimar: temos de voltar a imaginar. Acontece que a via pela qual Burroughs nos convoca é da adicção, é pela substância que também passa por suas veias; não, não estou me referindo ao uso de heroína. Na verdade, o uso de heroína, que Burroughs reconhece como uma tecnologia de controle do sistema, assim como o uso da escrita literária, opera, para ele, como uma contra-adicção. Somos adictos, logo devemos ser contra-adictos: a única resistência possível é a subversiva. O uso subversivo da linguagem, o uso subversivo da droga para alterar o sentido das coisas, para habitar mundos outros e não para reforçar a dependência neste mundo, neste sentido dado.

O plano que ele apresenta é: se somos hospedeiros da linguagem, podemos fazer um outro uso dela, que desta vez seria incapturável pelo sistema dado o seu poder de diferimento do sentido. A literatura, enquanto faculdade do imaginário, serviria como uma forma de vacina. Injetando, introjetando no organismo pequenas quantidades de literatura, seríamos capazes de criar uma imunologia ao vírus. A escrita é mais uma vez reconhecida em seu poder farmacológico.

Platão, no diálogo Fedro, já havia apontado os perigos do phármakon/escrita. Essa poção que é anti-substância, anti-identidade, pura ambivalência entre remédio e veneno. O phármakon, por toda essa rejeição ao auto decifrável, não permite que sua estrutura seja reduzida ao racional, à linguagem discursiva do logos, ao conceito. Assim, criptográfico, ele age alquimicamente obedecendo a sua própria lei secreta, segundo à qual os seus efeitos serão sempre arriscados, podendo cindir em mais vida ou em aprofundamento da doença, em mais morte.

A escrita, como algo que subverte não somente aquilo que busca explicitar, decifrar, encontra na literatura a própria dimensão indecifrável da mistura entre remédio e veneno. Enquanto o sistema faz uso da linguagem como tecnologia de controle, a linguagem literária, mais parasitária do que o vírus extraterrestre, infiltra-se no sistema se passando por inofensiva. Disso, decorre-se as rachaduras no edifício do pensamento, do sistema, e uma imunologia subversiva. A inversão subversiva do sentido, pois a palavra está sempre aberta a ser ressignificada por quem a lê, confunde o sistema e não permite que se perceba o organismo intruso.

A escritura, que parece dever fixar a linguagem, é precisamente o que a altera; ela não muda as palavras, mas o gênio. [A escrita] literalmente a infectou [3]

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.