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Por Mayara Dionizio

lockdown enquanto acontecimento de ruptura subversiva do desejo e da hospitalidade

Em abril de 2020 foi decretado o Lockdown em diversos países do mundo. O vírus como linguagem atravessou fronteiras, juntamente ao vírus da COVID-19, e mesmo quando todas as fronteiras foram fechadas. Isto demarcou uma aceleração em uma outra demarcação, aquela que viria a aprofundar as identidades biológicas, de classe, de raça, de territórios e nacionalidades. Passamos a ser classificados e categorizados de forma mais acirrada de acordo com um lugar, muitas vezes pré-determinado, de quem somos, onde estamos e o que temos. Assim, as distinções rasgaram o verniz social mostrando que para muitos estarem em segurança, muitos outros estariam expostos à morte, um utilitarismo socioeconômico e cultural escancarado. Não obstante, os países mais ricos automaticamente se fecharam para aqueles que já eram indesejados e que, desta vez, mais do que o vírus da cultura do outro, poderiam trazer o vírus biológico – que nunca é somente biológico. Nada disso era inexistente antes da pandemia, sabemos, essas fronteiras fixadas em identidades já estavam estabelecidas e já funcionavam como forma de gestão biopolítica, mas com a COVID-19 os governos neoliberais encontraram a possibilidade de aprofundar essas distinções e abrir espaço para algo que já vinha se constituindo, se anunciando, uma espécie de tecno-biopolítica.

Muitas questões se anunciam a partir de então, se verticalizam em relação às fronteiras físicas, virtuais, subjetivas, políticas, econômicas, cientificas, etc. Campos de reflexões que já vinham sendo debatidos, pensados há muito tempo, de repente, voltaram de uma forma ressignificada, mas que continuam a expressar os mesmos questionamentos acerca da cientificidade do discurso. Nesse contexto, se por um lado os negacionistas negavam o discurso cientifico em prol de teorias conspiratórias e fascistas – a fim de acirrarem uma outras fronteiras, aquelas que poderiam e que queriam se garantir por meio de um conservadorismo – do outro lado, tivemos de seguir esse discurso científico e defendê-lo. Mas, essa defesa, que também era a única que tínhamos para sobreviver, não era cega de que a ciência segue uma ideologia e, naquele e neste contexto, é a neoliberal na qual as grandes indústrias farmacêuticas e as big techs foram as que mais lucraram. Tudo isso de que falo aqui, mais uma vez, não traz nenhuma novidade e, antes mesmo da declaração de Pandemia pela OMS, em 11/03/2020, essa investida já era anunciada por diversos pensadores [1]. Contudo, isso serve aqui para delimitar a ruptura subversiva do desejo e da hospitalidade causadas pelo acontecimento da COVID-19.

O desejo que permanece desejo do outro que permanece outrem

“A questão é o desejo do pensamento” [2], diz Maurice Blanchot. “a questão do estrangeiro é uma questão do estrangeiro, uma questão vinda do estrangeiro, uma questão ao estrangeiro, endereçada ao estrangeiro” [3], diz Jacques Derrida. Parece que, a partir dessas afirmações, podemos começar aa traçar aproximações entre questão, desejo e hospitalidade. Sim, há um elemento novo, mas que torna possível todos os outros, porque afinal sempre há o que se deseja e o desejo sempre é vítima de uma questão; também sempre se questiona sobre quem, ou o que, chega; e quem, ou o que, chega sempre questiona a ordem estabelecida. A questão, nesse sentido, é a condição para todas as outras questões, como se pudéssemos falar de uma questão que reunisse o poder de questionar – inclusive, a ruptura que é o acontecimento decorre no poder de questionar o que ele é, ou mesmo, o que ele causou. É que a questão sempre pergunta pelo sentido, sempre consiste em uma tentativa de comunicação, de transporte. Quando perguntamos sobre o que se deseja, sobre o que desejamos, estamos sempre buscando significar o sentido do desejo. Quando perguntamos sobre o que se deseja, estamos sempre a perguntar pelo que vem e o que vem é sempre transportado. Só que nesse transporte de sentido, nessa tentativa sempre efêmera, encontramos fronteiras que são falhas em somente obstaculizar a entrada do estrangeiro, elas os ressignificam, ou melhor, os recodificam. Acontece também que o ato de questionar parece demonstrar-nos que falta uma parte, pois a questão é uma afirmação que exige uma resposta, deseja o pensamento. Por desejar o pensamento, deseja algo que a exceda enquanto questão, não seria aquilo que lhe é estrangeiro?

A partir dessa divagação, podemos retornar, sem mesmo jamais termos saído, à chegada do outro em nossas casas. A casa, o lar, sabemos, não é um espaço de liberdade e intimidade pura – se é que essas categorias existam de modo puro, para mim, não –, ela é, antes de mais nada, um espaço micro do macro que é atravessado por uma série de dimensões dentre as quais encontramos como exemplo comum a instância paternal do logos. Que, em um primeiro e restrito cenário, é quem tem o direito e o dever de desejar acima de todos os outros desejos. Aquele que demarca o que é próprio e o que não é. Por isso, a chegada de outrem é sempre, de certa forma, parricida. Uma vez que o outro sempre questiona, mesmo quando nada questiona, o que acontece ali naquela dinâmica de legitimação do logos e do desejo. Outrem, nesse contexto, nem sempre é alguém desconhecido, mas aquele que deseja outramente e, por isso mesmo desconhecido, que coloca em suspensão o desejo que era tido até então como superior. Outrem é aquele que descentra o logos, o centro, o desejo

O Estrangeiro carrega e faz a questão duvidosa, ele se vê ou prevê a si mesmo, ele sabe de antemão que está sendo questionado pela autoridade paterna e razoável do logos. A instância paternal do logos está prestes a desarmá-lo, a chamá-lo de louco, e isso no exato momento em que sua pergunta, a questão do estranho, parece desafiá-lo apenas para lembrá-lo do que deveria ser óbvio até mesmo para os cegos![4]

Por isso mesmo, parricida, pois o estrangeiro é sempre filho indesejado dessas mesmas dimensões. Indesejado, pois as excede e, por isso, vive para além dos limites da casa. E, quando essa instância paternal do logos se depara com o esse desejo excedente, o desejo que virou excesso justamente por não desejar o que falta, mas desejar o desejo, desejo de outrem como tal, e que se volta contra ele, é como se a sua centralidade, ao ser questionada, tivesse que se refazer para se manter. A primeira atitude, aquela que remota outros tempos, era a da repulsa. Mas ela deu lugar a uma repulsa assimiladora, aquela que incorpora para subverter em algo idêntico, ou em defesa de si. É aí que podemos começar a pensar os dispositivos tecnológicos como dispositivos de subjetivação que cruzaram uma fronteira que antes não era permitida que fosse atravessada. A expansão do regime neoliberal acabou por ver nessa crise fronteiriça, que já se anunciava antes da Pandemia por meio da expansão tecnológica, a possibilidade de aprimorar a sua gestão dos sujeitos fazendo uso de um tecno-biopoder. Como essa era uma tecnologia que já participava de nossas relações, não notamos quando abrimos as portas virtuais de nossos lares. Não notamos como nossa corporalidade acabou se adaptando a um certo modo de se sentar, de envergar a coluna, para melhor fazer uso de tecnologias que vieram, e funcionam, com a promessa extensiva de nossos corpos, criando e trazendo mundos possíveis. Para onde foi a nossa hospitalidade? Na verdade, poderíamos pensá-la como mais aberta que nunca, afinal, a estranheza, que é algo pertencente ao instante – o motivo pelo qual a instância do imediato pertente à ruptura – foi reduzida ao idêntico, imediatamente assimilada ao todo.

A hospitalidade: a capacidade de acolher, de hospedar não pode ser confundida com a capacidade de redução de outrem. Aquele que é recebido por mim deve sempre ser acolhido em sua diferença, da mesma forma como dele me distingo. A grande operação que foi executada, de forma subjetiva, é que a assimilação exclui a reflexão e recepção ética do outro como tal. Pela assimilação passamos a recepcionar o outro como idêntico, pela violência do Mesmo. Porém, não é o caso, a assimilação foi utilizada para que não rejeitássemos essa entrada, para que, a sua chegada fosse sempre já integrada. Isso, porque não se tratava de um estrangeiro, aquele que é afirmação da diferença e possibilidade de toda ética, mas uma atualização sistêmica de software.

Desejo: como podemos desejar se perdemos a capacidade de diferenciar? Há que se distinguir, acolher o outro impondo-lhe a lógica do Mesmo não compreende o desejo nem a hospitalidade. O desejo e a hospitalidade que assimilam o outro são aqueles que desejam a unidade, o logos. O desejo e a hospitalidade que acolhem o outro em sua diferença são aqueles em que a impossibilidade se torna potência subversiva se fazendo relação. Quando recebo outrem como tal, a impossibilidade de assimilação que ele impõe a mim, ao se diferir de mim, fazem dessa impossibilidade uma capacidade de reinvenção do desejo.

Chego aqui à bifurcação, ao paradoxo do desejo da hospitalidade: essas dinâmicas tecnológicas nos subjetivam, já sabemos. Nosso desejo, portanto, é assimilado por elas que prontamente o direciona, o cria. Isso está em nós, em nosso eu suplementado. Contudo, se toda suplementação está sempre aberta a ser suplementada, podemos subvertê-la, não para voltar ao que era; mas, sim, para refazê-la com vistas ao desejo sem nostalgia. Tal suplementação seria aquela de que fala Derrida, a respeito do Pharmakon, da mistura entre remédio e veneno:

“O esperma, a água, a tinta, a pintura, o tingimento perfumado: o pharmakon penetra como líquido, ele se bebe, se absorve, se introduz no interior que ele marca, primeiramente com a dureza do tipo, invadindo-o em seguida e inundando-o com seu remédio, sua beberagem, sua bebida, sua poção, seu veneno. No líquido, os opostos passam mais facilmente um no outro. O líquido é o elemento do pharmakon. E a água, pureza do líquido, se deixa o mais facilmente, o mais perigosamente, penetrar e depois se corromper pelo pharmakon, com o qual se mistura e se compõe tão rapidamente” (DERRIDA, 2017, p. 122, grifo do autor).

Não há mais como separar o que compõe a oposição, não há mais como diferir entre remédio e veneno na farmácia, assim como não há como distinguir entre tantos duplos perpetuados na história do pensamento ocidental filosófico: a verdade só existe em relação a uma não-verdade, o bem só o é porque o mau o sustenta; não há fora sem dentro e vice-versa, nem filho nem pai. Trata-se, assim, de uma irreversibilidade ao original. Tudo que há é composto do que não o é, portanto, o pharmakon não é veneno nem remédio, ele é o zero (0), o sem identidade, a mistura e, por isso, suplemento e différance.

Certa vez, Simone Weil escreveu que o desejo é o impossível. O impossível deve permanecer a potência do desejo como fonte desejante. Para tanto, que a assimilação e a repulsa de tão misturadas, façam que o estrangeiro permaneça como o desconhecido, como o impossível no seio dessa cena que se pretende originária. Que a impossibilidade se torne a forma de ressignificar o desejo e que vivamos sob o tecno-biopoder a sua suplementação em direção ao desconhecido como tal.

Continua!

Mayara Dionizio é escritora, filósofa e tradutora. Doutora em Filosofia (UFPR) e em Littérature et Civilisation Française (UPJV-França), autora do livro “Antonin Artaud: o instante intermitente” (2020), pesquisa e escreve sobre as relações entre comunidade, vagabundagem, antinomia na linguagem e suplementaridade.