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Por sobinfluencia

nota de santiago lópez petit para o livro “breve tratado para atacar a realidade”

Colagem de Katrien De Blauwer

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Na primeira edição de “Breve Tratado para Atacar a Realidade” não havia um prólogo, apenas uma nota inicial para o leitor, o que é muito diferente. A ausência de um prólogo ocorria devido ao livro perseguir um objetivo: construir uma posição em um campo de guerra, e uma posição não se sustenta por etapas, nem fazendo acordos, menos ainda apelando para justificações. Muitas vezes os prólogos servem para explicitar renúncias e anunciar promessas. “Somente o rechaço total da realidade nos mostra sua verdade” é a primeira frase do texto, e constitui o ponto de partida, assim como, também, o de chegada. Desdobrar essa circularidade, ou o que é igual, perfurar a tautologia que afirma “a realidade é a realidade” mediante um gesto de unilateralização, deveria colocar em nossas mãos um pensamento crítico e radical. Uma verdade livre de sentido que, ao não estar encadeada a um relato emancipatório, pudesse ser libertadora. Definitivamente, uma verdade com a qual se defender, e com a qual organizar esses buracos opacos ao olhar do poder. Adicionar, portanto, uma explicação prévia agora seria contraditório. Cabe, obviamente, efetuar um certo balanço, projetar um olhar de fora do próprio discurso auto-desenvolvido para comprovar até que ponto conseguiu cumprir sua função.

De que se trata esse livro? A resposta é simples e aparece desde o início: da realidade. Mais exatamente, de uma realidade que progressivamente se identificou com o capitalismo. Pois bem, o desafio consistia em elaborar uma teoria da exploração que levasse em conta essa identificação. Porque é preciso esclarecer em seguida que esta tese – cujo suporte é histórico, filosófico e político – não nega a possibilidade de uma luta libertadora, mesmo que certamente não a tome por fácil já que expulsa o autoengano. Entretanto, o que se precisa explicar é simples: como acabar com o capitalismo se somos nós mesmos que, simplesmente vivendo, o reproduzimos? A tentativa de resposta que o livro expõe passa por mostrar o funcionamento desta máquina de mobilização na qual estamos metidos, e desmontar a utopia capitalista. Destruída a autonomia da classe, desarticulada a classe trabalhadora enquanto sujeito político, o capital empreendeu uma marcha triunfante para a construção de sua própria autonomia. “A realidade tem que ser somente capitalista” foi a consigna que o guiou desde o momento em que ocorreu a derrota dos trabalhadores. A imposição de sua verdade tinha que se traduzir em uma autonomização generalizada: o capital é puro capital fictício, a política uma simples técnica despolitizante, e o cidadão uma unidade de mobilização. Desta maneira, o fetichismo da mercadoria do qual falava Marx, superando a si mesmo, havia se realizado na imanência mais absoluta. Porém, a análise do espaço-tempo global e da multi-realidade, assim como também o estudo das peças da máquina (o Estado-guerra, o fascismo pós-moderno, o poder terapêutico…) nos revelam que a autonomização do capital, em respeito ao conflito, não se produziu. A realidade não se deixa enclausurar completamente dentro da realidade capitalista. No mesmo instante em que se desvela seu funcionamento, aparecem vias de sabotagem. De sabotagem e de construção de outras realidades.

Vivemos, certamente, dentro do ventre da besta, mas isso não significa estar obrigado a ter que escolher entre a utopia ou o niilismo. O impasse em que nos encontramos não tem saída, mas pode ser atravessado. Quando a exploração se transforma em uma mobilização global da vida, aparece um mal estar social irredutível. Irredutível porque reside no próprio querer viver. O objetivo fundamental do “Breve Tratado para Atacar a Realidade” está então perfeitamente definido como a politização deste mal estar que é comum e, de uma só vez, próprio. Por essa razão, a teoria da exploração conduz a uma aposta pela força do anonimato A uma política noturna que introduz uma nova bateria de conceitos: interioridade comum, espaços de anonimato, gesto radical; o “giro subjetivo” que os estudos mais interessantes do neoliberalismo destacam quanto reconhecem a complexidade de sua infiltração no mundo, tem assim sua correspondência na prática da crítica. A interiorização do capitalismo (o ser precário, o Eu marca) deve se combater desfazendo essas formas de subjetividade, o que necessariamente comporta uma crueldade contra si mesmo pois significa deixar de ser o que somos. E tudo, obviamente, sem esquecer a dimensão coletiva que sempre existe no querer viver.

Afirmar que a obra antecipou o movimento do 15M ou o movimento dos indignados, segundo o conhecido termo jornalístico, é evidentemente uma pretensão fora do lugar. O acontecimento do 15M irrompeu, e ao mesmo tempo, veio preparado por uma multiplicidade de resistências silenciosas. Nos superou completamente e, entretanto, era tudo o que havíamos sonhado. Uma força carregada de vida e inteligência que se negava a ser representada. A consigna capitalista “isso é o que há” com sua carga de impotência e indiferença, podia ser neutralizada. As praças, o espaço tomado ilegalmente, era capaz de articular as politizações mais diversas. Não era justamente isso um espaço de anonimato? “Nossas vidas ou seus benefícios” resume perfeitamente o que por alguns dias estava em jogo. Resumindo, o acontecimento do 15M abriu um espaço de experimentação (crítica da política, desocupações da ordem, novos modos de vida…) e de resistência absolutamente impensáveis. O gesto radical de “tomar as praças” se repetiu em numerosas cidades de muitos países, até que finalmente se encontrou com seus próprios limites.

Seria muito amplo analisar o que se sucedeu e quais foram estes limites. Certamente, como explicava um militante egípcio: “De repente, os progressistas, os revolucionários de Tahrir abriram nossos olhos: não temos base social, somos muito mais fracos. Gastamos mal dois anos…”. Lembro perfeitamente de abandonar a assembleia que ocorria na praça Cataluña, tomar o último metrô para voltar para casa e descobrir outra cidade. Uma cidade indiferente feita de rostos inescrutáveis que não sabia (ou não queria saber porque sabia demais) o que estava ocorrendo acima da estação. Talvez confundimos a força do anonimato com o 99%. A força do anonimato não é um fato sociológico, mas se constrói no encontro com uma força da dor. Ao dizer “Basta”, o grito do querer viver abriu um vazio que tentamos habitar. Mas se a natureza se horroriza com o vazio, e o preenche em seguida, o mesmo acontece com a política. O vazio que produzia um nó no estômago porque removia a própria vida, foi preenchido rapidamente pelos velhos discursos à espreita. O que não significa, evidentemente, que nós sabíamos como avançar nem como sustentar o grito. O discurso nacionalista e a nova política vieram rápidos. Com o nacionalismo, por um lado, voltaram as bandeiras para a praça Cataluña. A nova política, por outro lado, ocultou a verdade insuportável que aflorava por meio de uma história triunfalista: “Podemos”. No mais puro estilo publicitário “storytelling”. Da verdade se passou ao sentido, de “politizar a existência” à necessidade de “traduzir politicamente” o movimento 15M. Não há muito mais a acrescentar. Viva a autonomia do político! Esse reformismo radical viu, pouco a pouco, como todos os seus referentes políticos se desmoronavam. Primeiro, os governos progressistas da América Latina, depois o presidente grego Tsipras, que ignorou a voz de seu povo para apoiar plenamente a UE.

O livro não oferece nenhuma solução porque não se trata de inventar novos contos. Sua leitura também não é um exercício de nostalgia. A contribuição da obra consiste em tentar ir além da crise da política moderna. “Fazer do querer viver um desafio” é a proposta aqui defendida. No entanto, o “Breve Tratado para Atacar a Realidade” exibe apenas a dimensão coletiva desse desafio. Por outro lado, Hijos de la noche, também publicado pela Tinta Limón, revela a dimensão pessoal e, neste sentido, constitui o seu complemento.

Barcelona, setembro de 2015