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Por Micael Zaramella

o futebol para os futebolistas

Há um episódio que corre pelas margens das narrativas mais difundidas sobre o maio de 1968 parisiense: a ocupação da sede da Federação Francesa de Futebol (FFF) entre os dias 22 e 27 daquele mês. Ao lado das mobilizações e paralisações de trabalhadores/as, bem como de levantes estudantis, que até hoje povoam as imagens de memória sobre o “evento 68”, a insurgência futebolística surpreendeu boa parte das opiniões e percepções debruçadas sobre o que ocorria nas universidades, fábricas e ruas.

Historiadores como Alfred Wahl sugerem que isto se deve à dimensão secundária atribuída ao esporte, quando comparada a outros componentes culturais da sociedade francesa (como o cinema ou a música). Longe de configurar uma especificidade daquele país, uma certa desatenção sobre as dimensões afetivo-políticas mobilizadas em torno das comunidades futebolísticas (e suas potências) ainda hoje reverbera em muitos cantos – inclusive no Brasil.

Gostaria de insistir na relevância de se observar a emergência da temática futebolística entre redes e movimentações dedicadas à imaginação de outras formas de vida, outros mundos possíveis. Certamente é o caso dos eventos ocorridos em maio de 68, ainda que não somente: se pensamos naquele maio expandido, já interpretado sob diferentes perspectivas enquanto “abertura de possível”, a imaginação de novas existências, subjetividades e relações deflagradas pelo “evento 68” não se esgota entre as balizas episódicas do momento, mas se espraia e interconecta com outros acontecimentos. Estamos nos referindo – com Deleuze & Guattari, mas também com autores como Franco “Bifo” Berardi – a uma “baforada de real” que se inscreve na dimensão da possibilidade vinculada à “extensão do campo do possível”. Esta experiência de lançar-se, nos termos de Bifo, à “reativação e criação de uma vida digna de ser vivida”, articula o 68 francês às práticas de autonomia italianas dos anos 70 e, através de uma proliferação descentrada de experiências, também às insurgências e radicalidades ambientadas em outras paisagens – como o Brasil desde onde escrevemos e pensamos, aqui e agora, sobre futebol e política.

Mantendo esta rede temática próxima de nós para prosas seguintes (um trio de textos que se inaugura aqui), proponho que nos debrucemos sobre o 68 dos futebolistas franceses.

Naquela manhã de 22 de maio, a menos de um quilômetro do arco do triunfo, o número 60 da Avenida d’Iéna foi ocupado por algumas fileiras de atletas amadores, além de dois jogadores profissionais – Michel Oriot e o progressista André Merelle, do tradicional Red Star Football Club – e redatores da revista Miroir du Football, muitos dos quais também eram federados por terem atuado como atletas semiprofissionais no passado. O manifesto apresentado pelo levante de atletas trazia seis pautas bastante objetivas – relativas ao calendário, às condições dos campos, aos regimes de contrato e à gestão do futebol francês –, costuradas junto a propostas de reorganização da estrutura dirigente do esporte no país e algumas palavras de ordem. Assim como o maio estudantil e dos/as trabalhadores/as, que transbordava slogans e frases inscritas em muros e nos cartazes do Atelier Populaire, na fachada do edifício da FFF os ocupantes estenderam faixas apresentando as suas próprias: “o futebol para os futebolistas!”, e “a federação, propriedade de 600.000 futebolistas” [1].

A fachada da Federação Francesa de Futebol, ocupada entre 22 e 27 de maio de 1968 [2]

Entre as pautas apresentadas, o historiador Alfred Wahl destaca particularmente a exigência de dissolução da chamada Licença B, forma de contrato imposta aos jogadores profissionais franceses da época, que visava restringir as mudanças de clube, delegando tal decisão exclusivamente aos dirigentes de suas equipes até os 35 anos de idade. Tal exigência, já previamente debatida por jogadores de destaque nos meios de comunicação do período – como Raymond Kopa, considerado o principal futebolista francês de então –, era mobilizada pelo movimento como eixo de críticas estruturais à gestão e administração do esporte. Em sintonia às expressões de radicalização democrática de seu contexto, o movimento propunha a realização de um referendo junto aos 600.000 futebolistas franceses, para destituir imediatamente os dirigentes da Federação.

A ocupação da FFF recebeu declarações pontuais de apoio de jogadores em atividade, como Yvon Douis (atacante do A.S. Cannes), bem como de atletas já aposentados, como o goleador Just Fontaine, maior artilheiro de uma Copa do Mundo (com treze tentos em 1958) e um dos fundadores da Union Nationale des Footballeurs Profissionnels (UNFP), entidade sindical do futebol francês. Outro apoio relevante partiu do jogador argelino Rachid Mekhloufi, antigo jogador da seleção francesa que protagonizou uma deserção coletiva, em 1958, de atletas argelinos coordenada pela Frente de Libertação Nacional (FLN) [3]. Compondo uma seleção nacional que se antecipava alguns anos à independência (efetivamente conquistada em 1962), Mekhloufi disputou quarenta jogos pela equipe durante quatro anos. Após a independência, retornou à França para atuar profissionalmente pelo A.S. Sáint-Étienne, onde jogava durante os acontecimentos de 1968.

A entidade sindical UNFP, por sua vez, gravitou entre a concordância com as pautas relativas às condições de trabalho e contrato dos jogadores franceses, e a rejeição àquilo que nomeava como “anarquias” e “desordens”, promovidas, em sua percepção, pelo grupo de ocupantes da Federação. Assumia, portanto, uma forma contida e politicamente voltada à negociação com os grupos dirigentes do futebol francês, repelindo a radicalidade das propostas de ruptura e destituição.

Embora a ocupação tenha durado apenas cinco dias, encerrando-se por decisão dos próprios componentes do movimento, efeitos práticos se expressaram no ano seguinte: a Federação Francesa de Futebol estipulou as bases para novas relações contratuais e profissionais entre os atletas e seus clubes, dando origem a um estatuto que seria aperfeiçoado até 1972, quando passou a vigorar efetivamente após uma greve de jogadores. As pautas levantadas pelos ocupantes da FFF, entretanto, não eram exclusivamente trabalhistas: especialmente por incentivo dos redatores da revista Miroir du Football [Espelho do Futebol, em tradução livre], publicada pela Éditions J (vinculada ao Partido Comunista Francês) e idealizada por François Thébaud, o manifesto também questionava as concepções e formas de jogo praticadas pela Seleção Francesa. O esquema tático fortemente defensivo do catenaccio, bastante utilizado à época por agremiações e seleções europeias, era particularmente criticado por Thébaud: admirador do futebol sulamericano (e especialmente do estilo criativo de jogadores como Pelé), o jornalista esportivo considerava a solidez defensiva uma forma profundamente reacionária de jogo, e defendia o jogo em linha (ou, em seus termos, “progressista”); conforme assinalado posteriormente pelo político francês Philippe Séguin, na perspectiva de Thébaud, o futebol defensivo traduziria em campo nada além do “dinheiro a não perder, isto é, do capitalismo mais sujo” [4].

Anos depois, curiosamente, as críticas contundentes de Thébaud a respeito do catenaccio encontrariam notável dissonância em relação à perspectiva de outro personagem das lutas políticas do contexto: o filósofo político italiano Antonio Negri [5], figura ativa do chamado operaísmo, declararia que o esquema tático do catenaccio poderia ser compreendido enquanto estratégia do mais fraco para se defender, metaforizando a luta de classes italiana [6]. Discordância que revela, ao invés da formulação de uma unidade programática, o significado das críticas ao jogo defensivo vinculadas ao exercício de imaginar e vocalizar a possibilidade de outros futebóis: a explosão de possíveis se manifesta, aqui, na multiplicidade de práticas e interpretações sobre o jogo, bem como a respeito de seus contextos.

Convém situar ainda que a pauta estilística, debruçada sobre a concepção de jogo, era mobilizada no manifesto dos ocupantes da Federação na crítica pessoalizada a figuras como Louis Dugauguez (treinador da equipe nacional francesa) e, especialmente, Georges Boulogne (instrutor geral), defensores de uma noção de jogo que o concebia enquanto rigoroso “aprendizado para a disciplina”. Conforme salientado por Alfred Wahl,

“Foi Georges Boulogne quem formalizou progressivamente as concepções globais do que ele chamou de futebol moderno. Seu objetivo central consistia em adaptar ao futebol as regras de funcionamento da economia moderna e da competição internacional […]. Boulogne copia no futebol os conceitos que circulavam no pensamento econômico da época, como crescimento, industrialização, desempenho”

Presente no edifício da Federação no dia 22 de maio de 1968, Boulogne chegou a ser mantido pelos ocupantes em uma sala separada, onde ficou confinado junto ao secretário geral Pierre Delaunay. Se os desdobramentos da ocupação, no ano seguinte, levaram a conquistas práticas no âmbito profissional e trabalhista, o mesmo não poderia ser dito a respeito das pautas estilísticas sobre a forma de jogo: em 1969 Boulogne assumiria o cargo de treinador da seleção nacional, e logo coordenaria a criação do Centro de Treinamento de Vichy, espaço onde veio a aprofundar a difusão de seus valores e concepções de jogo.

Encerrada a ocupação, os efeitos práticos e mais imediatos de sua ocorrência não esvaziaram a reverberação daquilo que se rasgou abertamente. Aqui nos perguntamos: cabe pensar, afinal, neste acontecimento enquanto criador de “uma nova existência, […] uma nova subjetividade”, tal como Deleuze e Guattari compreendem o maio de 68 em sua amplitude múltipla? É certo que a articulação das distintas pautas – debruçadas sobre as condições do trabalho futebolístico, as estruturas de gestão e a forma do jogo em si – expressava na prática política o agenciamento de desejos e possibilidades imaginadas sobre o futebol, vocalizadas pelo movimento de atletas e pensadores do esporte (isto se propunham a ser também, afinal, os redatores da Miroir du Football). Nos termos do próprio François Thébaud, ofereciam “uma outra ideia do futebol”.

Nesta mesma linha, Jean Tible destaca a importância de entender 1968 enquanto uma “fenda no sistema de domínio” que inaugura, em diversos aspectos, o mundo contemporâneo. Essa fenda teria sido “[…] produzida não só pelas demandas por melhores salários e melhores condições de vida dos trabalhadores, mas também por uma insubordinação generalizada, articulada com outros movimentos e demandas”. Longe de carregar um pioneirismo distintivo, é certo que a ocupação da FFF se articulava a todo um mosaico de lutas (inclusive futebolísticas) que eclodiam na França e em outras partes do mundo, muitas vezes dissociadas entre si: sua inscrição neste contexto, ao mesmo tempo em que vocaliza diretamente pautas até então invisíveis aos olhos do poder dos gestores e dirigentes, pode ser pensada em articulação enredada às demais insurreições futebolísticas desse momento histórico. Estas remetem, por exemplo, à já mencionada luta anticolonial de Rachid Mekhloufi uma década antes, e ressoam no envolvimento das insurgências italianas dos anos 70 à esfera do esporte, bem como nas expressões brasileiras de organização autogestionária futebolística ocorridas no mesmo período (marcado pelo autoritarismo do regime militar) [7].

Ao mesmo tempo, é fundamental lembrar que aquela expressiva multiplicidade de desejos de transformação social, lançada ao mundo em 68, não se bastaria sem operar o agenciamento coletivo de uma mutação significativa das subjetividades. Para Tible, “daí a reação-repressão por todos os lados nos dias, meses e anos seguintes, por toda parte do planeta”. Esse tensionamento, no campo futebolístico, se fará perceber na ambivalência dos efeitos produzidos pela ocupação da sede da Federação: modificam-se condições, mas também se fortalece a defesa de certos valores. A visão disciplinar de jogo, cada vez mais difundida entre futebolistas europeus sob o signo do moderno, atravessará oceanos para encontrar simpatizantes e defensores ferrenhos no contexto de militarização do futebol brasileiro, por exemplo. Aspectos que não devem ser medidos quantitativamente na forma de vitórias ou derrotas, mas compreendidos em seu enredamento, na composição de um cenário sociopolítico de fluxos e tensões evidenciadas na esfera futebolística.

Se em veículos da imprensa esportiva francesa o debate segue gravitando – mais de 50 anos depois – em torno do efetivo sucesso ou fracasso da fugaz insurgência de futebolistas em maio de 68 [8], a deliberada curta duração da ocupação enquanto acontecimento nos indica a possibilidade de que seu anseio fosse menos pragmático do que as pautas objetivas do movimento podem sugerir. Assim como a convocação à ação direta inscrita nos muros de Paris – “Não reivindicaremos nada, não pediremos nada. Pegaremos, ocuparemos” –, as frases penduradas pelos ocupantes nas varandas do edifício da Federação configuraram uma autêntica “baforada de real em estado puro”: a necessária lembrança de que o futebol não deve ser reivindicado ou demandado, pois já pertence, em si, àqueles e àquelas que o fazem.

Micael Zaramella é historiador, pesquisador e torcedor de arquibancada do Palmeiras. Mestre em História Social (FFLCH-USP) e autor do livro “No gramado em que a luta o aguarda: antifascismo e a disputa pela democracia no Palmeiras (Ed. Autonomia Literária, 2022), se interessa pelas relações entre futebol e organização política. Coordena o Grupo de Estudos Palestrinos, vinculado ao Coletivo Ocupa Palestra – do qual faz parte.

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