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Por sobinfluencia

prólogo de contra/políticas da alquimia, por maría pandiello

Em Contra/políticas da alquimia, Andityas Matos resgata potências políticas an-árquicas e radicais da alquimia que foram há séculos capturada por dispositivos reducionistas típicos de interpretações historiográficas – por meio da crítica do mito que diz que a alquimia teria sido uma espécie de antecessora da química moderna.

Além da promoção de pré-venda do livro (com 20% de desconto), o autor está disponibilizando uma AULA (ALQUIMIA, AN-ARQUIA E DEMOCRACIA RADICAL) em torno da publicação.

O encontro será realizado online e ao vivo (com gravação para poder ser assistido posteriormente), e a discussão se dará em torno do sentido em que a rica tradição textual e imagética da alquimia dos séculos XVI e XVII pode oferecer elementos para repensarmos várias dimensões sociais atuais, como gênero, identidade, sujeito, método, an-arquia e democracia, à luz do pensamento de Spinoza, Bataille, Benjamin, Deleuze & Guattari e Agamben, entre outras referências.

Como parte da campanha de pré-venda, disponibilizamos o prólogo, de maneira integral, escrito para brilhante María Pandiello, a pedido do autor.

Pandiello é licenciada em Filologia Românica pela Universitat de Barcelona e mestre em História da Arte Medieval pela Universidade Nova de Lisboa, autora de “Visiones de fuego. Historia ilustrada de la alquimia” (Editora La Felguera), entre outras obras.

No ano simbólico de 1666, o empresário e político Jean-Baptiste Colbert convencia o rei da França, Luís XIV, a criar a Académie des Sciences. O nascimento da instituição francesa pretendia, entre outras coisas, colocar o país na vanguarda da investigação científica em uma Europa deslumbrada com o desenvolvimento técnico e intelectual. É curioso que, já desde os primeiros momentos de sua fundação, Colbert tenha proibido explicitamente duas práticas: a primeira delas era a adivinhação astrológica, e a segunda, qualquer tentativa de produzir a pedra filosofal.

Muito a contragosto, a química passou a fazer parte do elenco de matérias científicas da Academia em 1666, ainda que não tenha sido uma inclusão simples nem pacífica. Em primeiro lugar, a chymica ou alquimia – termos até então praticamente indistinguíveis – era uma disciplina elusiva que não se adaptava ao ideal cartesiano das matemáticas ou da geometria, disciplinas veneradas na recém-inaugurada Academia. A química tampouco tinha contornos nítidos; é significativo o fato de que não existisse uma terminologia definida para se referir a ela: tanto podia ser chymica quanto alquimia. Ademais, os praticantes dessa ciência formavam um grupo bastante heterogêneo; sob as asas da alquimia era possível encontrar uma disparidade fascinante: empresários arrivistas, reis hipocondríacos, médicos e eruditos da corte, mulheres iletradas com um profundo conhecimento botânico e medicinal, aristocratas em busca de remédios cosméticos, boticários, aprendizes de laboratório, falsificadoras, envenenadores, charlatães, místicos, necromantes, etc… Sem dúvida, a chymica carecia de uma identidade digerível para a Academia, já que não só atravessava distintos estamentos sociais, mas também era cultivada em contextos diversos e com inúmeras finalidades.

A entrada da chymica na Academia comportava, ademais, outros dilemas morais intrínsecos à suja e fedorenta prática. Para que servia a chymica? O máximo que os acadêmicos franceses estavam dispostos a conceder a seus colegas químicos era uma disciplina sucedânea da farmácia. Contudo, quando ilustres químicos da Academia como Homberg ou Duclos começavam a falar abertamente da pedra filosofal ou da crisopeia – transmutação dos metais em ouro –, seus companheiros não podiam deixar de sentir uma espécie de vergonha alheia. Lawrence M. Principe ilustrou essa situação com perfeição quando afirmou que, para muitos acadêmicos, a chymica (ou alquimia) era como ter que comparecer a um jantar real com um primo provinciano. De fato, como toda instituição acadêmica, a francesa era constituída por uma classe elitista que protegia diligentemente sua imagem pública, e contar com alquimistas entre seus membros poderia desprestigiar a instituição. Nesse sentido, a Academia francesa estava apenas prolongando um debate ativo há séculos, pois tanto a crisopeia quanto a pedra filosofal sempre foram temas polêmicos no seio da alquimia. A intervenção no curso da natureza envolvia questões morais longamente discutidas por filósofos e teólogos da Europa medieval e renascentista. Por outro lado, muitos viam os alquimistas como tolos que perseguiam quimeras ou simples vigaristas e criminosos. Em qualquer dos dois casos, um alquimista somente poderia ser um louco ou um impostor. A crisopeia, a pedra filosofal e inclusive o elixir da juventude estavam no domínio da alquimia, e ali dividiam espaço com uma infinidade de práticas como a farmácia, a cosmética, a perfumaria ou a pirotécnica, entre muitas outras. Nesse amplo espectro de disciplinas, algumas eram consideradas dignas de entrar na Academia; outras, todavia, deviam ser suprimidas o quanto antes.

O que aconteceu nas décadas posteriores à fundação da Académie des Sciences – refiro-me aos anos entre 1666 e 1722 – foi tão simples como um “reposicionamento de marca” (rebranding). Depois de muitas disputas na Academia francesa, os químicos foram mais ou menos coagidos a denunciar publicamente os usos da crisopeia e da pedra filosofal, mesmo que, evidentemente, tudo isso continuasse sendo praticado em privado. A ideia era eliminar os elementos incômodos da chymica e introduzi-los em outra categoria – a alquimia –, potencializando desse modo a dimensão científica da chymica. Assim, começou-se a delimitar terminologias: alquimia e química faziam referências a conteúdos diferenciados. Em termos gerais, essa cisão tardia separou a química – vista como uma ciência executada por investigadores acadêmicos – da alquimia, uma pseudociência marginal que tem como único objetivo transformar metais em ouro. Não obstante, é necessário insistir no fato de que tal divisão corresponde a um paradigma moderno que não representa de maneira nenhuma a prática alquímica dos séculos anteriores, cuja identidade é muito mais heterogênea, rica e plural do que se tende a descrever. A alquimia, muito estigmatizada até os dias de hoje por parte de historiadores da ciência, tem um papel fundamental no desenvolvimento da química em particular e das ciências em geral.

Tendo em vista a longa e complicada jornada da alquimia na Europa podemos concluir que ela sempre foi uma disciplina marginal. É verdade que em várias ocasiões ela foi patrocinada por esferas de poder. Entretanto, isso não a salvou de seu estatuto periférico; invariavelmente, ela foi estudada e praticada em círculos mais ou menos fechados e subterrâneos. Foi precisamente a partir dessa marginalidade que a alquimia não só desenvolveu grande parte de sua identidade – manifesta em sua linguagem iniciática e em insólitas visões –, mas nela também se forjou a alquimia como uma arma de dissidência e de resistência. Ali, a partir da periferia, essa disciplina não pretendia conhecer a realidade, aspirando antes a transformá-la, conspirando, dessa maneira, contra uma realidade imperfeita. Para tanto, a alquimia recorria à monstruosidade, à transgressão, ao artifício, à hibridação e à impureza, subvertendo assim paradigmas em grande medida irrefutáveis.

O livro que se segue recolhe com grande sensibilidade essa semente transgressora da alquimia. Não se trata de um ensaio sobre a história da alquimia; é muito mais do que isso. É um resgate da linguagem e dos princípios alquímicos como ferramentas críticas fundamentais. O mais clarividente do autor é que ele não sistematiza o método alquímico – grande erro das revisões modernas –, mas abraça todas e cada uma de suas contradições.

Nos sulcos do pêndulo mercurial está o rastro de um movimento, um balanço que oscila entre a utopia e o pragmatismo. Em suma, trata-se de um ensaio que celebra e explora todas as consequências inerentes à marginalidade da alquimia: sua combinação paradoxal entre a resistência e a mutabilidade, a criação de redes comunais atípicas, sua transversalidade como ciência amorfa, suas grandezas e – por que não? – suas baixezas.

Amberes, 22 de agosto de 2023.