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Por sobinfluencia

uma ideia radical de liberdade

Le Mythe Décisif, Jean Terrosian

No seu belo ensaio de 1929 sobre o surrealismo, Walter Benjamin escrevia: “Desde Bakunin falta à Europa uma ideia radical de liberdade. Os surrealistas a têm”. É difícil imaginar melhor resumo do espírito surrealista. Breton já havia colocado o tema em letras de fogo no Manifesto Surrealista: “Somente a palavra liberdade é tudo o que ainda me exalta. (…) Sem dúvida ela responde a minha única aspiração legítima”.

Outro comentário pertinente, que data da mesma época, é o de José Carlos Mariátegui, num artigo intitulado “El grupo surrealista y ‘Clarté’” (1926): este movimento “não é um simples fenômeno literário, mas um complexo fenômeno espiritual. Não é uma moda artística, mas um protesto do espírito”.

Aqui temos algumas das características quintessenciais do movimento surrealista: um espírito libertário e um protesto radical. Contra quem? Sem dúvidas contra a civilização capitalista ocidental, contra o colonialismo, contra a estreita racionalidade burguesa e contra a alienação religiosa. Assim como, inseparavelmente, a busca permanente do “ouro do tempo”: o maravilhoso, a arte mágica, a poesia universal, o amor sublime. Em poucas palavras, o surrealismo é um espírito de insubordinação poética.

Em 1969, alguns dos mais conhecidos membros do grupo surrealista de Paris, a começar por Jean Schuster e José Pierre, proclamam publicamente o “fim do surrealismo”. A partir deste momento, nos escritos da Academia, dos jornalistas e de outros “especialistas”, a ideia de que o surrealismo havia terminado assumiu a consistência pesada e granítica do dogma. Mas a verdade é bem diferente: pouco depois deste ato gratuito, Vincent Bounoure publicou Nada ou o quê? [Rien ou quoi?] (1970) [1], um apelo a continuar a aventura surrealista, recebendo o apoio de Joyce Mansour, Marianne van Hirtum, Micheline Bounoure, Michel Zimbacca e vários outros, além do grupo surrealista de Praga.

Uma das particularidades do surrealismo desde sua origem em 1924 é a atividade coletiva, que pode tomar a forma de experiências, jogos e declarações coletivas. Os panfletos (tracts) surrealistas de 1922 a 1969 foram reunidos por José Pierre em dois tomos publicados por Eric Losfeld em 1980. Estes volumes reúnem documentos que testemunham a vitalidade, a virulência e a altura poética do movimento em todas as suas tomadas de posição. O presente volume seria portanto o terceiro desta série, que demonstra de forma categórica a falsidade do pretenso “enterro” de 1969: o suposto “morto” segue de pé e distribui alegremente ponta-pés a seus adversários. O documento que serve de introdução a este livro apresenta um breve resumo das atividades do Grupo de Paris do Movimento Surrealista de 1970 a 2022.

Por uma Insubordinação Poética foi organizado por Guy Girard, poeta e pintor surrealista, principal animador do Grupo desde 2010; ele também é o autor dos breves comentários a cada uma das declarações, panfleto ou cartazes; aliás, os cartazes, colados em muros de Paris, são uma inovação deste último período… Os documentos são muito diferentes entre si, e abordam temas dos mais diversos, desde uma carta de solidariedade dirigida à American Indian Association em 1973 até um panfleto sobre as lutas sociais de 2006, distribuído nas ruas durante as manifestações daquele ano, passando por uma polêmica contra o filósofo Jürgen Habermas (que não conseguiu entender o que é o surrealismo) e uma denuncia (também publicada em latim impecável) contra a visita do Papa João Paulo II à França. Apesar desta diversidade, todos os materiais aqui incluídos compartem do desprezo (para não dizer ódio) pela abjeção capitalista, e pela tirania dos múltiplos Ubus [2], sagrados ou profanos, de nossa época. Eles são, ao mesmo tempo, documentos poéticos de uma busca mágica permanente, de uma viagem arriscada em direção ao continente “Utopia”, do sonho de uma outra civilização, que teria por princípio regulador a atração apaixonada de Charles Fourier.

A publicação deste livro no Brasil é muito oportuna. Desde a Exposição Surrealista de São Paulo em 1967, organizada por Sergio Lima, as experiências surrealistas brasileiras sempre tiveram uma relação direta — de correspondência no sentido baudelairiano da palavra — com o movimento surrealista de Paris. Se trata de uma conexão renovada, sob outras formas, pela nova geração surrealista dos últimos anos (Alex Januário, Natan Schäfer, e muitos outros).

Como o revela esta coleção de tracts, o surrealismo não é um corpo de doutrinas, uma biblioteca de Sagradas Escrituras, ou um conjunto de obras de arte instaladas nos museus: se trata de um movimento, um rio que corre e que nunca é o mesmo (para citar o célebre fragmento de Heráclito de Éfeso), uma aventura permanente. A data de nascimento é 1924 mas não haverá “fim da história” enquanto existir, em algum lugar do mundo, o espírito surrealista de insubordinação poética.

Michael Löwy,
surrealista franco-brasileiro