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Por sobinfluencia

uma política da loucura pela reforma psiquiátrica e pela luta antimanicomial, por paulo amarante

François Tosquelles (1912-1994), autor de Uma política da loucura, foi um psiquiatra revolucionário catalão, que merece ser lembrado pela importância de seu trabalho no campo da saúde mental e por sua luta antifascista. Tosquelles se baseava na psicanálise e no marxismo em sua prática clínico-institucional, estabelecendo conexões com a política, a cultura e o social, considerando o teatro, o cinema, a arte e a escrita como ferramentas fundamentais para o trabalho na instituição.

Além do desconto especial durante a pré-venda, a sobinfluencia está oferecendo uma AULA com o tradutor do livro, Anderson Santos, membro do coletivo Psicanálise na Praça Roosevelt e organizador da obra “Psicanálise e Esquizoanálise: diferença e composição”(2022, n-1 edições) e “Guattari/Kogawa. Rádio livre. Autonomia. Japão” (2020, sobinfluencia edições).

A aula sobre o livro será realizada de maneira online (ao vivo) e ficará gravada para que possa ser acessada posteriormente.

A sobinfluencia apresenta em seu blog o prefácio do livro, escrito por um dos pioneiros da luta antimanicomial no Brasil, Paulo Amarante, psiquiatra capixaba, pesquisador da Fiocruz e um dos grandes críticos da forma pela qual a psiquiatria vem patologizando experiências de vida e medicalizando sofrimentos psíquicos causados pela vulnerabilidade social decorrente do neoliberalismo.

Para saber mais sobre a pré-venda e aula, acesse: sobinfluencia.com/loja

Uma política da loucura, organizado por Anderson Santos, demarca o início da correção de uma injustiça, ou do início de uma reparação política, ética e epistemológica, não apenas no contexto da reforma psiquiátrica brasileira, mas também de outras experiências internacionais no campo da psiquiatria e áreas afins. Isto porque François Tosquelles, personagem central deste livro, foi, sem dúvida alguma, um dos mais importantes protagonistas de um processo de transformação inovador e radical no campo da psiquiatria que, embora tenha se tornado referência e fonte de inspiração para muitos outros processos, não destacou o reconhecimento do pensamento e da ação de sua principal liderança.

A experiência que viria a ser internacionalmente conhecida e reverenciada sob a denominação de psicoterapia institucional, mas que nasceu nomeada por seu mentor como coletivo terapêutico, expressão similar àquela utilizada por Maxwell Jones, comunidade terapêutica. A proximidade das expressões talvez indique que ambas tivessem alguns elementos em comum, motivo pelo qual forneceram algumas das bases mais importantes para o processo brasileiro de reforma psiquiátrica. Não é demais ressaltar que as atuais “comunidades terapêuticas” religiosas (de cunho manicomial, fundamentalista, conservador, repressor e tantas características antidemocráticas e anti-libertárias) existentes no Brasil para o tratamento de uso problemático de substâncias, não têm nenhuma similaridade com estas que aqui nos referimos. Pelo contrário, podem ser consideras opostas às mesmas, o que indica uma flagrante fraude ideológica, ética e política!

Este livro nos possibilita conhecer alguns detalhes e dados muito importantes do pensamento, do trabalho e da ação política de François Tosquelles, médico catalão que, refugiado no sul da França em decorrência da Guerra Civil Espanhola, acabou presenteando a humanidade com uma rica experiência de transformação das instituições psiquiátricas manicomiais e com a construção de uma nova visão sobre a loucura e o sofrimento humano. E um dos méritos que devemos reconhecer e Tosquelles foi o de exercitar o protagonismo dos internos no enfrentamento e na gestão de suas próprias condições, envolvendo-os nas questões político-institucionais e mesmo nas questões de ordem clínica de seus tratamentos.

Admirador de Hermann Simon, Tosquelles considerava que seria preciso cuidar não apenas dos pacientes, dos internos, mas também da instituição, princípio este que se tornará a referência central para a experiência, o que teria motivado Daumezon e Koechlin, em um artigo publicado em 1952, em uma revista portuguesa, a propor a denominação de noção de psicoterapia institucional, que ficaria historicamente consagrada.

Na prática, além da utilização da psicanálise para pensar os mecanismos e conflitos institucionais que se manifestavam em práticas perversas, impessoais, burocráticas, estereotipadas, ou para inspirar-se nela como fonte de invenção, de ressignificação, o ponto estratégico estaria na possibilidade de reforçar o protagonismo dos sujeitos envolvidos na instituição. Não apenas tratar os sujeitos como pacientes, como objetos da ação psiquiátrica, mas como protagonistas, como sujeitos de direitos de suas próprias histórias.

A formação crítica e a prática de inspiração marxista de Tosquelles ajuda-nos a compreender as suas atitudes revolucionárias em vários sentidos. Militante da União Socialista da Catalunha, do bloco Operário e Camponês, e do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), dentre tantas outras militâncias e envolvimentos políticos, Tosquelles transportava para sua prática na instituição psiquiátrica, os princípios libertários e democráticos pelos quais lutava no campo da luta política em geral.

No Hospital de Saint-Alban, no sul da França, Tosquelles iniciou um trabalho de resgatar o potencial terapêutico que, acreditava, estaria nas bases dos primeiros hospitais psiquiátricos, tal como propostos por Pinel e Esquirol, enquanto lugares de lugar de tratamento e cura, que teriam sido desviados deste objetivo por causa da precariedade, especialmente em tempos de guerra e domínio capitalista, mas também por falta de uma nova proposta terapêutica.

A “terapêutica ativa” de Hermann Simon, aliada à psicanálise, viria a apontar o percurso por onde seguir, que partia da análise da própria instituição e do envolvimento real dos internos como sujeitos. Simon esteve na base tanto da psicoterapia institucional quanto da comunidade terapêutica, que são mais ou menos contemporâneas, e dentre nós, também do pensamento e do trabalho de Nise da Silveira desde a fundação do Serviço de Terapia Ocupacional e Reabilitação (STOR), em 1946, que viria a se tornar o Museu de Imagens do Inconsciente. E neste aspecto da influência de Simon, Tosquelles adotou com garra o princípio da terapêutica ativa, que se tornou uma espécie de passaporte para que a experiência ganhasse reconhecimento internacional. E neste aspecto, considero fundamental observar que o trabalho de Tosquelles demonstrou ser possível uma transformação profunda do campo psiquiátrico a partir da ressignificação das relações entre as pessoas, independentemente de suas inserções na instituição, da própria instituição, entendida como o conjunto de práticas, saberes, concepções e dispositivos que produzem e reproduzem formas de ver e agir.

Os resultados positivos e alentadores da experiência da psicoterapia institucional permitiram antecipar um debate bastante crucial, e que se mantém ainda hoje, talvez até mesmo mais fortalecido, dado o crescimento assombroso da indústria farmacêutica e sua ascendência, ou mesmo dominação, sobre as instituições psiquiátricas de formação, pesquisa, produção de conhecimento e práticas assistenciais.

Um dos mitos inventados pela aliança entre a Big-farma e a psiquiatria é o de que as políticas de reabilitação, ressocialização, desospitalização, etc., só foram possíveis graças ao advento dos neurolépticos. Como se sabe, o primeiro neuroléptico utilizado foi a clorpromazina, “descoberta” em 1952. Mais recentemente, a psiquiatria abandonou o termo ‘neuroléptico’ (composto pelo prefixo neuro e pelo sufixo leptic que, grosso modo, significa ‘aquilo que controla os nervos’, denunciando uma suposta relação etiológica das doenças mentais como doenças dos nervos), e passou a utilizar, como estratégia de marketing, o termo antipsicótico (para provocar uma analogia de atuação efetiva na causa ou origem da doença, assim como ocorre com os antibióticos, anti-inflamatórios, etc.).

Em outras palavras, o bom resultado do trabalho em Saint-Alban veio desmontar este mito propalado pela psiquiatria convencional, de que os processos de reforma psiquiátrica só teriam sido possíveis na medida em que foram introduzidos os psicofármacos. Não custa observar que a psicoterapia institucional nasceu na década de 40 (assim como a comunidade terapêutica) anos antes da introdução do primeiro neuroléptico, e não esquecendo de observar também a que a mera descoberta do medicamento não significava sua produção industrial imediata e sua utilização em massa, ainda mais numa época em que existiam poucas farmácias, que significativa parcela das mesas era de manipulação e não se dispunha de 10 ou mais farmácias por quarteirão como nos dias atuais.

Mas, por que minha insistência neste debate? Porque Tosquelles com os bons resultados obtidos em Saint-Alban, garantidos a partir do envolvimento dos internos, da criação de espaços de participação, de construção coletiva de iniciativas, a exemplo, o Clube, criado por Paul Balvet, e tantas outras, provou que o fundamental não seria a medicação, não seria o combate ao sintoma como algo indesejável a ser extirpado (e muitas tentativas bárbaras de extirpação dos sintomas foram feitas pela psiquiatria, como as lobotomias, malárioterapias, choques insulínicos, eletroconvulsoterapias…), mas a reconstrução dos processos de vida, das relações sociais, das práticas de cooperação, ajuda mutua, reconhecimento, solidariedade, pertencimento, etc.

E devemos a Tosquelles muitas das práticas e propostas que saíram desta experiência da psicoterapia institucional e que contribuíram para a ‘psiquiatria de setor’, desdobramento crítico da psicoterapia institucional conduzida inicialmente por Lucien Bonnafé, um dos médicos de Saint-Alban, que viria a se tornar base da política nacional de saúde mental da França. Mas à psicoterapia institucional devemos também muitas das propostas de transformação das práticas de cuidado, de escuta, de protagonismo, de participação social, que viriam a ser consideradas referências tanto para a experiência italiana, quanto para a espanhola e a brasileira que abririam muitas outras possibilidades em vários lugares do mundo.

Por sua démarche política, ética, filosófica, Tosquelles atraiu muitos militantes de várias áreas, de vários campos da luta política, artística e científica. Por Saint-Alban passaram Salvador Dalí e muitos outros surrealistas, passaram George Canguilhem, Paul Éluard, Jacques Lacan, Lucién Bonnafé, Jean Oury, Frantz Fanon, Félix Guattari e muitos outros que ajudaram a mudar o mundo!

No mais, devo deixar os leitores com o belíssimo e contundente texto de “Uma política da loucura” para que possam desfrutar do próprio François Tosquelles e dos comentários e complementações de Anderson Santos.

Desejo boa leitura, bom proveito e boa utilização nos processos de transformação do campo da saúde mental, reforma psiquiátrica e luta antimanicomial.