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Por sobinfluencia

uma saúde que emerge da revolução: a importância de retomar Tosquelles

O texto a seguir, escrito por Wander Wilson, retoma a potência da revolução espanhola ao relembrar uma saúde que emerge desde as práticas autogestionárias que incitaram e fizeram parte das invenções de François Tosquelles.

“Uma saúde que emerge da revolução: a importância de retomar Tosquelles” integra esforços em repensar a saúde mental desde o anticapitalismo, assim como lançamentos recentes da editora como “Desejo e Revolução”, uma conversa entre Guattari, Bifo e Bertetto e, principalmente, “Uma política da loucura”, do próprio Tosquelles (em pré-venda pela editora com 20% de desconto).

O psiquiatra e psicanalista Jean Oury trabalhou com Tosquelles em Sant-Alban, participando do momento responsável pela fundação da “psicoterapia institucional”, que se desdobrará na fundação da Clínica La Borde, em parceria com Guattari.

Lembramos, também, de outro texto de Wander Wilson, publicado na primeira edição do Cardume – periódico da editora – e também neste mesmo blog, “O fascismo é o paroxismo do normal” que nos recorda a necessidade de sair da asfixia em que nos encontramos, rompendo com a normalidade.

Boa Leitura!

Hay un viejo mundo obsoleto
Y otros nuevos mundos que se abren

Nunca seremos los mismos
Nada será como antes
Y no es que lo diga yo, sino la calle

Primavera Loka – La Lira Libertária

(…) Nós não tememos as ruínas, porque levamos um mundo novo em nossos corações, e este mundo está crescendo neste momento.
Buenaventura Durruti

As experiências revolucionárias e insurrecionais, durante sua irrupção, costumam recolocar o tempo, o espaço e o possível.  Esta abertura que fende as relações hierárquicas constituídas foi parte do que permeou o mês de julho em 1936, quando o sol acalentava mais forte, com a revolução espanhola. Durante a revolução se coletivizaram cidades, autogestionaram fábricas e serviços e, em alguns lugares, o dinheiro foi abolido, passando pela forte presença de uma cultura anarquista entranhada pelo território dominado pelo Estado espanhol [1].  Em meio à produção de novos mundos, abriu-se também um novo campo para o que chamamos hoje de saúde mental. Estiveram na revolução uma série de médicos, psiquiatras e psicanalistas como: Félix Martí-ibañez, Francesc Tosquelles, Amparo Poch y Gascón, Salvador Vives Casajuana e Isaac Puente.

Neste campo, alguns, como Martí-Ibañez, permaneceram mais atrelados as teorias da degeneração, de forte presença na psiquiatria do período, reproduzindo um racismo do anormal inerente a esta perspectiva. Esta relação não deixou produzir ambivalências: ao mesmo tempo que Martí-Ibañez participou de reflexões e implementações de políticas de saúde importantes em relação à liberação sexual das mulheres, qualificou a homossexualidade como um desvio, uma inversão sexual [2]. Outros, não deixaram de criticar e se afastar deste tipo de posição. Nestes percursos há uma importância fundamental na presença de Tosquelles. O catalão, formado psiquiatra e afeito à psicanálise, foi parte do BOC (Bloco Operário e Campesino) e participou da fundação do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista). Tosquelles é muitas vezes descrito como um marxista libertário ou de sensibilidade libertária [3], devido a sua defesa da autogestão e seu combate às hierarquias, características que irá levar consigo ao longo de sua história e prática clínica.

Durante estes anos acalentados, Tosquelles foi médico-chefe dos serviços psiquiátricos da frente sul da Catalunha. Em Almodóvar do Campo, construiu um serviço próximo ao que seria posteriormente definido como Comunidades Terapêuticas [4]. Neste espaço, estabeleceu práticas de cuidado que fossem capazes de descentralizar-se da própria medicina. A equipe de trabalho não foi constituída de psiquiatras ou outros trabalhadores clássicos da saúde, que, segundo Tosquelles, eram formados para ter medo da loucura. Reuniu, então, um grupo composto por pessoas comuns.  Inverte a psiquiatria de seu tempo, que patologizava a prostituição como parte da degeneração de raça, ao notar que o trabalho dessas mulheres permitia facilmente entender que “de louco todo mundo tem um pouco”, e, nesse sentido, seriam mais valiosas como trabalhadoras da saúde que qualquer médico. Deixou como registro deste período o seguinte relato:

A guerra civil, diferentemente da guerra de uma nação contra outra, está relacionada à não-homogeneidade do eu. Cada um de nós é feito de pedaços contrapostos, como uniões paradoxais e desuniões. A personalidade não é feita como um bloco. Se fosse, viraria uma estátua. É preciso registrar uma coisa paradoxal: a guerra não produz novos doentes, ao contrário, durante a guerra há muito menos neuroses e até psicoses que se curam, em relação à vida civil.

A não-homogeneidade do Eu desloca o problema do indivíduo como propriedade privada de si mesmo produzido pelo liberalismo, presente sem deixar de se modificar, hoje, no conceito de unidade do eu dos exames psíquicos. A guerra, como a da revolução espanhola, quebrava com forças centrípetas de homegeneização, inerentes à vida civil de qualquer Estado, o que impele a transformação da própria saúde.

Tosquelles recoloca seu trabalho no período revolucionário como combate a ideologia burguesa: 

O que fiz em Aragón? Não havia muitos pacientes. Se aparecia algum neurótico de guerra, evitava que fosse enviado duzentos quilômetros da linha de frente, cuidava deles ali onde as coisas mesmo se desencadearam. (…) além de cuidar desses pacientes que mal existiam, adquiri o hábito de cuidar dos médicos, para que perdessem o medo. A guerra civil comporta uma mudança de perspectiva sobre o mundo. Geralmente os médicos têm na cabeça a estabilidade de um mundo burguês (viver sozinhos, fazer dinheiro, ser cientistas). Ora, numa guerra civil, como foi a nossa, o médico tinha de poder aceitar a mudança de perspectiva sobre o mundo; poder aceitar que fossem os clientes quem determinasse sua clientela, que ele não era onipotente. Ocupei-me, portanto, da psicoterapia daqueles homens normais. Não daria para fazer psiquiatria conservando uma ideologia burguesa e individualista. Um bom cidadão seria incapaz de fazer psiquiatria, ela comportava uma anti-cultura [5].

Em março de 1939, com a revolução caindo diante do fascismo franquista, Tosquelles foge pelos Pirineus para a França. No caminho passa pelo campo de concentração de Sept-Fonds, em que, disfarçado, realiza um breve trabalho de psiquiatria, valendo-se mais uma vez de pessoas comuns e usando de sua posição de psiquiatra para auxiliar em fugas do campo. Chegou em 1940 no hospital Saint-Alban, convidado por Salvador Vives Casajuana, seu companheiro de revolução. Nesta instituição, retomou os conceitos de revolução permanente e autogestão para pensar toda terapêutica.  Durante a ocupação nazista da França, Saint-Alban servia para refugiados, trabalhadores, artistas, escritores e pessoas que buscavam cuidados. O cuidado era coletivo entre todos que ali estavam.  Ao longo dos anos passaram por Saint-Alban pessoas como: Jean Dubuffet, Frantz Fanon, Paul Eluard, Louis Le Guillant, Paul Sivadon e Georges Canguilhem, que escreveu os capítulos finais de “O normal e o patológico” no período que passou pela instituição.

Tosquelles preferia o conceito de asilo ao termo médico hospital. Asilo, segundo ele, designaria que pessoas se refugiam naquele espaço, muitas vezes desertando de seu núcleo familiar e das violências inerentes a esta instituição. Durante a ocupação nazista, Saint-Alban foi como uma declaração de que “todo asilado é um asilado político”, seja um refugiado da nação, do nazismo, do stalinismo (como vários de seus companheiros de revolução), da razão ou do núcleo familiar e seu binarismo de gênero. Tosquelles sabia disso desde a própria vida, tendo nascido catalão em território ocupado e dominado pelo Estado espanhol, sendo asilado desde o nascimento.

Existe uma política da linguagem derivada desta experiência estrangeira, compartilhada pelo povo do qual Tosquelles faz parte [6]. Neste período, os catalães propositadamente falavam mal a língua espanhola, era preciso demarcar que, embora em território dominado, não eram espanhóis. Sua perspectiva como psiquiatra, é a de que só é possível praticar este saber afirmando-se como estrangeiro. Se esta arte clínica comporta uma anticultura, é preciso compreender esta negação como aquela do sujeito ao qual se analisa, adaptando-o para obediência, ou na linha tênue e complexa entre o sujeito e as relações deste mundo, a ideologia burguesa e a normalidade, produzindo uma tentativa que, em Saint-Alban, uma das pessoas ali atendidas nomeou de “escola da liberdade”.

A importância de Tosquelles está em colocar o problema do que hoje chamamos saúde mental desde a política, da revolução, aqui e agora. Em suas experiências, é a própria divisão entre o normal e o anormal, no entranhado do poder médico, que aparece como ponto de partida, recolocando as questões e as práticas em termos de perspectiva de mundo, combate à ideologia burguesa, produção da autogestão e supressão de hierarquias. É preciso retomar a terra de nossa história e lembrar que um dos começos das críticas à autoridade psiquiátrica, do combate a certo tipo de política nosográfica, experimentações de vida e cuidados posteriormente chamados de antipsiquiátricos, e muito do que veio a ser produzido nos 1960 e 1970, desembocando em parte da história da luta que empurra a abertura dos manicômios, possui um de seus começos na Revolução Espanhola. Não parece fortuito que este processo tenha, em seu início, passado pela abertura da prisão-modelo da cidade de Barcelona. Abrir as prisões e desafiar a normalização pela saúde é atacar dois lados de uma mesma política.

Talvez, ao longo da construção da sua perspectiva de curar as instituições [7], Tosquelles tenha esquecido da vida revolucionária de 1936, momento que passa por uma “desinstitucionalização” que rompe com o Estado e seus policiais, de farda ou jaleco [8]. Ao mesmo tempo, nos alerta que o manicômio é algo produzido aquém e além de sua estrutura arquitetônica, e, se, abrir as portas desses cemitérios de vivos deu forma a certa liberdade e garantia de vida aos considerados loucos, também abriu as portas para a atualização de relações de poder que produziam e mantinham a arquitetura deste enclausuramento.  Como chegou a afirmar:

é difícil fazer algo com corpos constituídos, mas principalmente com o corpo constituído dos psiquiatras.

Retomar a terra de nossa história é lembrar cotidianamente que não foi o Estado, ou uma política baseada em evidências, que produziu a perspectiva de, para retomar uma expressão que é temporalmente posterior, “uma liberdade como terapêutica”. A revolução foi um momento em que novos mundos se abriram. Outros mundos, com outras saúdes e cuidados, existiram e existem, também hoje [9]. Outros podem ser atualizados e produzidos. Alguns destes, como a revolução espanhola, podem ter passado pela história rápido como um relâmpago, mas não deixaram de iluminar e fender, desde a terra, desde baixo.

Como diz um clássico cumprimento anarquista, Saúde e Liberdade!

Agradecimento especial à Gustavo Racy pela primeira revisão deste e aos amigos da sobinfluencia edições. Ninguém escreve um texto sozinho, ele se faz desde as relações. Conheçam também as editoras anarquistas Biblioteca Terra Livre, Terra Sem Amos, Insurrectas, e o infoshop 1000contra, parte da okupa Kasa Invisível, espaços de trocas e publicações fundamentais para o aparecimento destas reflexões.